Não há solução à vista para a recuperação do alto grau de
desconfiança da população no Supremo
Cabe ao tribunal decidir se faz autocrítica para salvar a
instituição ou se ignora as evidências e aprofunda a crise
Na sexta-feira (17), Edson
Fachin e Cármen
Lúcia respiraram fundo e foram ao cerne da questão: a crise de
confiança que assola o Judiciário, em particular o Supremo Tribunal Federal, é
grave e precisa ser enfrentada pelos próprios juízes.
O presidente e a ministra vocalizaram o que diz a população
nas pesquisas que registram o alto
grau de desconfiança na corte. Minados internamente, partiram para o
desabafo externo na tentativa de mostrar aos colegas a necessidade de
reconhecer o óbvio e virar essa página nefasta na história do STF.
A situação atual é uma temeridade em
matéria de firmeza institucional. Foi o que ambos disseram nas entrelinhas sem
ceder a arroubos de acusações, mas deram o alerta para quem, como afirmou
Fachin, tem "olhos de ver e ouvidos de ouvir".
Viemos parar nesse ponto com a ofensiva do bolsonarismo, mas
não só. Antes disso tivemos atos arbitrários e ações nem sempre justificadas no
desmonte de investigações. Agora vemos o Supremo ser atraído para o poço ainda
sem fundo do caso Master por condutas inadequadas de ministros e falta de
reação adequada do colegiado.
Onde vai dar isso, qual o caminho para o restauro da
confiança no último bastião, não sabemos. A ala ativista do tribunal parece
apostar em resistir e guerrear até que tudo se ajeite no aconchego do
esquecimento.
Difícil de acontecer, pois a confrontação alimenta a
percepção da falta do equilíbrio esperado em magistrados. Fachin e Cármen Lúcia
não encontram respaldo no tribunal; são relatados como isolados pelos pares
mais vocais na circulação de versões junto aos meios de comunicação.
Daqueles que não costumam ter esse tipo de interlocução, não
se sabe o que pensam. O ideal seria se manifestarem para que a sociedade saiba
como o conjunto dos magistrados avalia o declínio de reputação.
Cabe ao STF decidir se insiste em negar as evidências ou se
salva a instituição mediante a autocrítica, a transparência e a autocontenção
no uso do poder de dar a palavra final.

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