Presidente busca dar novo gás na reta final do governo;
senador tenta conter exposição
A esta altura do campeonato, seis meses antes do primeiro
turno, as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador
Flávio Bolsonaro (PL) adotam estratégias distintas. Lula não tem tempo a
perder: candidato à reeleição, o presidente busca dar novo gás ao governo nesta
reta final de seu terceiro mandato.
Pouco tempo se passou entre o anúncio dos ministros que
decidiram concorrer a algum cargo eletivo e a nomeação dos respectivos
substitutos. No entanto, há semanas se vivia no Palácio do Planalto um clima de
transição, o qual, para alguns integrantes do Executivo, foi longo demais.
Ainda nem está claro o papel que todos os ex-ministros desempenharão nas
eleições, e agora a prioridade de Lula passou a ser o desenho de novas medidas
econômicas para tentar melhorar o humor da população.
Já o conselho dado ao principal
pré-candidato da oposição é recolher-se, jogar parado e, desta forma, tentar
errar o menos possível. Mas não parece que será um plano de fácil execução.
Em poucos dias de exposição, o senador desacreditou as urnas
eletrônicas, defendeu que os Estados Unidos tutelassem a liberdade de expressão
no Brasil e abriu um flanco para a esquerda novamente questionar a forma com a
qual oferece oportunidades para os americanos explorarem terras raras em
território nacional. Deu margem a ataques daqueles que questionam a
verossimilhança do termo “Bolsonaro moderado” e, em outra frente, para que Lula
possa reerguer a bandeira nacionalista que lhe garantiu melhores índices de
popularidade num passado recente.
Em outra ocasião, Flávio Bolsonaro disse que o governador de
São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), seria um candidato a presidente
mais preparado do que ele próprio. Na prática, esperou acabar o prazo de
desincompatibilização para só então realizar um novo gesto ao aliado que,
embora lhe fizesse sombra por ser o preferido do Centrão e do mercado, acabara
preterido pelo pai na escolha do candidato bolsonarista ao Palácio do Planalto.
Mas com isso pelo menos tentou garantir que o governador do maior colégio
eleitoral do país entre para valer na sua campanha. Entre aliados de Bolsonaro,
é dado como fato que a pré-candidatura de Ronaldo Caiado (PSD) irá tirar votos
de Flávio no primeiro turno.
Também se viu nova briga na base bolsonarista, e o senador
precisou agir para evitar uma escalada na discussão entre o deputado Nikolas
Ferreira (PL-MG) e Eduardo Bolsonaro, seu irmão. Estancou a crise, mas acabou
reforçando a impressão entre agentes do mercado de que as potenciais
instabilidades criadas pela sua família devem ser vistas como um risco político
real, caso vença a eleição.
Em vez disso, era um momento para comemorar o resultado da
janela partidária. Como previsto pela cúpula do seu partido, o PL saiu com a
maior bancada do período de um mês em que a legislação deixa o deputado federal
trocar de legenda sem perder o mandato. Com um saldo positivo de dez
parlamentares, o PL chega às vésperas do pleito de outubro com 97
representantes na Câmara.
Além disso, esses números escondem alguns aspectos que não
podem ser ignorados. O primeiro é que a ala bolsonarista saiu fortalecida na
sigla, atraindo aliados estratégicos nos Estados e tirando do partido deputados
com projetos nacionais distintos ou com outros interesses em seus Estados.
Esse resultado da janela partidária também reforçou os
argumentos da campanha bolsonarista de que Flávio será o único candidato à
direita com o apoio congressual necessário para aperfeiçoar o sistema
tributário e o regime previdenciário, assim como realizar o ajuste fiscal capaz
de fazer brilhar os olhos dos agentes do mercado. A meta do PL é eleger a maior
bancada da próxima legislatura, sendo que líderes do partido chegam a falar em
mais de 120 deputados federais de um total de 513. É um objetivo arrojado.
Do lado do governo, o desafio é outro. Corre-se contra o
tempo para colocar de pé um programa que gere algum alívio às pessoas
endividadas, tentando jogar sobre o colo dos integrantes do Comitê de Política
Monetária (Copom) do Banco Central (BC) a maior parte da responsabilidade pelo
problema enfrentado por milhões de famílias.
Para executivos do sistema financeiro, porém, também seria
um bom momento para autoridades do Palácio do Planalto refletirem sobre as
outras possíveis causas da redução da renda disponível dessa parte da
população. Entre elas, decisões que acabaram minguando o acesso a linhas de
crédito mais baratas, como as que acabaram por limitar o crédito consignado e o
saque-aniversário do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
Uma avaliação a ser feita é se houve uma migração dessas
linhas para produtos mais caros, como o cheque especial e o rotativo do cartão
de crédito. Outra é se, ao prometer um programa que irá abater parte
considerável de dívidas correntes, o governo não acabou por incentivar o
adiamento da quitação desses débitos em aberto. Por mais que pareça um
paradoxo, o próprio governo pode ter alimentado o aumento da inadimplência
nestes últimos dias.

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