quarta-feira, 8 de abril de 2026

A SEIS MESES DA ELEIÇÃO, OS DESAFIOS DE LULA E FLÁVIO BOLSONARO

Fernando Exman, Valor Econômico

Presidente busca dar novo gás na reta final do governo; senador tenta conter exposição

A esta altura do campeonato, seis meses antes do primeiro turno, as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) adotam estratégias distintas. Lula não tem tempo a perder: candidato à reeleição, o presidente busca dar novo gás ao governo nesta reta final de seu terceiro mandato.

Pouco tempo se passou entre o anúncio dos ministros que decidiram concorrer a algum cargo eletivo e a nomeação dos respectivos substitutos. No entanto, há semanas se vivia no Palácio do Planalto um clima de transição, o qual, para alguns integrantes do Executivo, foi longo demais. Ainda nem está claro o papel que todos os ex-ministros desempenharão nas eleições, e agora a prioridade de Lula passou a ser o desenho de novas medidas econômicas para tentar melhorar o humor da população.

Já o conselho dado ao principal pré-candidato da oposição é recolher-se, jogar parado e, desta forma, tentar errar o menos possível. Mas não parece que será um plano de fácil execução.

Em poucos dias de exposição, o senador desacreditou as urnas eletrônicas, defendeu que os Estados Unidos tutelassem a liberdade de expressão no Brasil e abriu um flanco para a esquerda novamente questionar a forma com a qual oferece oportunidades para os americanos explorarem terras raras em território nacional. Deu margem a ataques daqueles que questionam a verossimilhança do termo “Bolsonaro moderado” e, em outra frente, para que Lula possa reerguer a bandeira nacionalista que lhe garantiu melhores índices de popularidade num passado recente.

Em outra ocasião, Flávio Bolsonaro disse que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), seria um candidato a presidente mais preparado do que ele próprio. Na prática, esperou acabar o prazo de desincompatibilização para só então realizar um novo gesto ao aliado que, embora lhe fizesse sombra por ser o preferido do Centrão e do mercado, acabara preterido pelo pai na escolha do candidato bolsonarista ao Palácio do Planalto. Mas com isso pelo menos tentou garantir que o governador do maior colégio eleitoral do país entre para valer na sua campanha. Entre aliados de Bolsonaro, é dado como fato que a pré-candidatura de Ronaldo Caiado (PSD) irá tirar votos de Flávio no primeiro turno.

Também se viu nova briga na base bolsonarista, e o senador precisou agir para evitar uma escalada na discussão entre o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e Eduardo Bolsonaro, seu irmão. Estancou a crise, mas acabou reforçando a impressão entre agentes do mercado de que as potenciais instabilidades criadas pela sua família devem ser vistas como um risco político real, caso vença a eleição.

Em vez disso, era um momento para comemorar o resultado da janela partidária. Como previsto pela cúpula do seu partido, o PL saiu com a maior bancada do período de um mês em que a legislação deixa o deputado federal trocar de legenda sem perder o mandato. Com um saldo positivo de dez parlamentares, o PL chega às vésperas do pleito de outubro com 97 representantes na Câmara.

Além disso, esses números escondem alguns aspectos que não podem ser ignorados. O primeiro é que a ala bolsonarista saiu fortalecida na sigla, atraindo aliados estratégicos nos Estados e tirando do partido deputados com projetos nacionais distintos ou com outros interesses em seus Estados.

Esse resultado da janela partidária também reforçou os argumentos da campanha bolsonarista de que Flávio será o único candidato à direita com o apoio congressual necessário para aperfeiçoar o sistema tributário e o regime previdenciário, assim como realizar o ajuste fiscal capaz de fazer brilhar os olhos dos agentes do mercado. A meta do PL é eleger a maior bancada da próxima legislatura, sendo que líderes do partido chegam a falar em mais de 120 deputados federais de um total de 513. É um objetivo arrojado.

Do lado do governo, o desafio é outro. Corre-se contra o tempo para colocar de pé um programa que gere algum alívio às pessoas endividadas, tentando jogar sobre o colo dos integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) a maior parte da responsabilidade pelo problema enfrentado por milhões de famílias.

Para executivos do sistema financeiro, porém, também seria um bom momento para autoridades do Palácio do Planalto refletirem sobre as outras possíveis causas da redução da renda disponível dessa parte da população. Entre elas, decisões que acabaram minguando o acesso a linhas de crédito mais baratas, como as que acabaram por limitar o crédito consignado e o saque-aniversário do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Uma avaliação a ser feita é se houve uma migração dessas linhas para produtos mais caros, como o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito. Outra é se, ao prometer um programa que irá abater parte considerável de dívidas correntes, o governo não acabou por incentivar o adiamento da quitação desses débitos em aberto. Por mais que pareça um paradoxo, o próprio governo pode ter alimentado o aumento da inadimplência nestes últimos dias.

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