Ala do PT que esnobou Alckmin para vice na chapa da
reeleição só pensa no ‘pós-Lula’
Presidente bem que tentou ampliar a aliança, mas foi
alertado até por Dirceu de que tirar o vice equivaleria a correr sério risco
eleitoral
A decisão do presidente Lula de manter a dobradinha com o
vice Geraldo Alckmin (PSB) na chapa da reeleição foi um sinal importante para o
eleitorado mais conservador em uma disputa polarizada como a que ocorrerá em
outubro. Afinal, Alckmin vinha sendo “bombardeado” por uma ala do PT, sob a
alegação de que era preciso ampliar a aliança para a centro-direita. Mas, quem
diria, acabou defendido pela velha-guarda petista que antes o esnobava.
O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, por exemplo, chegou
a afirmar que tirar o ex-governador da chapa significava pôr em risco a
reeleição de Lula. O próprio presidente, porém, ficou em dúvida e Alckmin foi
sendo “empurrado” de lá para cá na montagem dos palanques.
Discreto, não disse uma palavra, até que
Fernando Haddad resolveu a questão. Candidato ao governo de São Paulo, o
ex-ministro da Fazenda foi taxativo: afirmou que o melhor lugar para Alckmin
era ao lado de Lula. E ponto final.
De qualquer forma, as críticas feitas no sábado pelo senador
Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, durante a conferência da CPAC,
nos Estados Unidos, serviram de munição para a campanha petista.
Flávio deu uma alfinetada na gestão de Donald Trump, que
reduziu o “tarifaço” imposto aos nossos produtos, ao observar que o americano
se aproximou de aliados errados no Brasil.
O detalhe é que, além do Itamaraty, um dos maiores
negociadores com os EUA foi justamente Alckmin, à frente do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio.
Na reunião ministerial de ontem, Lula fez referência ao
pronunciamento de Flávio nos EUA, ressuscitou o discurso da soberania e
aproveitou para elogiar o “companheiro Alckmin”, de saída do ministério. Mesmo
com o “tarifaço”, o Brasil bateu recordes de exportações: somente no ano
passado, foram US$ 348,7 bilhões.
De ferrenhos rivais em eleições passadas, “sapo barbudo” e
“picolé de chuchu” se tornaram amigos. Mas o ciúme do PT é porque uma ala do
partido só pensa no pós-Lula. E, embora Haddad seja o “candidato natural” a
partir de 2030, se Alckmin estiver sentado na cadeira de vice, tudo pode
acontecer.
Sem um capitão do time como em mandatos anteriores, Lula
vive no fim deste 3.º governo, guardadas as proporções, uma situação semelhante
à do técnico Gentil Cardoso, que, nas décadas de 50 e 60, treinava os jogadores
munido de um megafone.
Irritado com as bolas nas costas sofridas pelo time, o então
presidente do Sport Clube do Recife, Adelmar da Costa Carvalho, perguntou a
Gentil: “O que falta nessa equipe?” O técnico não titubeou. “Entrosamento”,
respondeu. Foi então que Adelmar deu a ordem: “Contrate!”
Nos bastidores do governo, a história é mais uma das muitas
lembradas por ministros que, a exemplo de Alckmin, adoram contar “causos”. Na
prática, porém, Lula precisa mesmo contratar esse tal de “entrosamento”. Mas, a
seis meses das eleições, será que ainda adianta? •

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