De acordo com a CNI, antes da guerra no Irã, a taxa de
juros de equilíbrio seria de 11%, 3,75 pontos percentuais abaixo da atual
Um mês atrás, esta coluna saiu com o título “Empresas vão ao
‘matadouro’ sem dar um pio”. Era uma forma de sugerir que os juros altíssimos
no país estavam levando grandes e médias empresas, silenciosamente, a uma
situação de endividamento insustentável.
Por coincidência, no mesmo dia e no seguinte, dois grupos
gigantescos pediram recuperação extrajudicial, com dívidas de R$ 4,5 bilhões e
R$ 65 bilhões. A estranheza do colunista era pelo fato de que praticamente não
havia críticas de empresários do setor produtivo à política monetária do Banco
Central, que mantinha a Selic em 15% ao ano, uma das causas mais importantes
desses pedidos de renegociação de dívidas com credores.
Um empresário, Rafael Cervone, contestou essa afirmação,
argumentando que tem lutado de forma sistemática contra a política dos juros
altos. E ele tinha provas. Uma busca detalhada de suas manifestações em artigos
e entrevistas confirma empenho frequente no combate ao “triste consenso” entre
analistas de mercado e o Banco Central para manter juros exorbitantes há três
décadas no país.
Cervone é presidente do Centro das
Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Como nenhum outro empresário se manifestou, vale alinhar
ideias de Cervone. Já em setembro de 2023, ao citar a Selic média de 12,63%
verificada em 2022, ele apresentou danos dessa taxa citando dados da Fiesp. Se
o Brasil tivesse os juros reais próximos dos de África do Sul, Chile, Indonésia
ou México, países emergentes onde as taxas também são altas, mas inferiores à
brasileira, o custo de financiamento de capital de giro da indústria brasileira
cairia de R$ 71,5 bilhões para R$ 37,6 bilhões em 2022. Só com o ganho nessa
rubrica, de R$ 33,9 bilhões, seria possível duplicar os gastos com pesquisa e
desenvolvimento, itens cruciais para o avanço industrial.
Atolado em notícias e efeitos das guerras do senhor Trump, o
Brasil esqueceu um pouco dos juros, mas o assunto já volta à cena e ganhará
espaço até o fim do mês, quando, segundo a previsões, o BC deverá fazer uma
nova e insignificante redução da Selic.
A divergência teórica ou ideológica entre BC+mercado e os
economistas não ortodoxos espelha mais ou menos o dilema de “o ovo ou a
galinha”. Os ortodoxos argumentam que os juros altos são hoje consequência de
fatores estruturais, como o elevado endividamento público e o risco fiscal. Os
não ortodoxos sustentam que seriam os juros elevados os causadores dos aumentos
da dívida pública, das empresas e das famílias, bem como do custo de vida. Isso
estaria travando investimentos e o crescimento da produção.
Cervone não se propõe, obviamente, a resolver esse dilema.
Reconhece a importância do ajuste fiscal, mas observa que “não se pode usar
indefinidamente o desequilíbrio das contas públicas como desculpa para manter a
Selic em níveis punitivos para quem produz, consome e trabalha”.
Na última reunião do Copom, o BC cortou a Selic de 15% para
14,75% ao ano. A redução de 0,25 ponto percentual, insignificante, mantém o
juro brasileiro em nível historicamente elevado. Apesar de eventos
imprevisíveis, como guerras e seu impacto na inflação, há espaço para um corte
maior no dia 29. Segundo dados da CNI, a Selic está errada. Antes do conflito
no Irã e Oriente Médio, a taxa de juros de equilíbrio, suficiente para manter a
inflação estável e a economia no pleno emprego, seria de 11%, 3,75 pontos
percentuais abaixo da atual.
Quando o presidente Donald Trump anunciou seu tarifaço
histórico de 50%, em abril do ano passado, Cervone sugeriu que o nível da Selic
representava um “fogo amigo” adicional contra as exportações brasileiras. O
peso dos juros seria uma “tarifa extra” para os produtos nacionais vendidos no
exterior. O tarifaço foi atenuado, mas o “fogo amigo” mantém-se até hoje,
somando-se ao da guerra.
Não há, felizmente, silêncio total do empresariado do setor
produtivo sobre o massacre dos juros no país. Sem muito espaço na mídia, que
ouve mais as lideranças do mercado financeiro, algumas vozes constantes alertam
para o “sofrimento” da indústria. Cervone é uma delas. Em março, quando o IBGE
divulgou os dados do PIB de 2025, ele observou que a indústria teve uma queda
de produção de 0,2% no ano passado, o que seria um “agudo sinal de alerta” a
merecer atenção das autoridades, tanto dos responsáveis pela política fiscal
quando da monetária.
Cervone animou-se quando Gabriel Galípolo assumiu o Banco
Central, em janeiro do ano passado, na esperança de que ele encontrasse “um
patamar mais equilibrado e civilizado para a taxa de juros”. Deve estar
frustrado.
Em meio aos impactos das guerras de Trump, na semana
passada, Galípolo exaltou a cautela do BC na condução da política monetária.
Cautela é sempre necessária, em qualquer situação, mas não pode ser confundida
com omissão. Com ou sem guerras, os juros brasileiros estão fora de lugar e,
mesmo elevados até a lua, não podem fazer milagres, como resolver choques de
oferta vindos do longínquo estreito de Ormuz

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