Se a campanha petista não entender a razão por que a
isenção do IR não trouxe benefício eleitoral para a reeleição, não é a escala
5x2 que o fará
Confirmado o envio da escala 5 x 2 de trabalho para a Câmara
dos Deputados, pelo governo, restará a dúvida se a proposta, uma vez aprovada,
trará dividendos eleitorais ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, feito que
a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil não foi capaz.
Há indicadores mais preocupantes no Datafolha para Lula do
que a ultrapassagem, na margem de erro, pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O primeiro é a taxa de aprovação (soma da avaliação boa e ótima). Dos
presidentes reeleitos, Dilma Rousseff foi aquela que disputou com a menor taxa:
39%. Neste quesito, Lula tem 29%.
O segundo é que Lula, desde 2002, não chegava ao início do
semestre das eleições tão mal situado nas pesquisas. Naquele ano, ele estava
bem atrás do ex-ministro José Serra, mas disputou como desafiante numa campanha
marcada pelo desejo de mudança. Agora é o incumbente.
A palavra, além de feia, é um anglicismo
semântico ainda não dicionarizado. Existe na língua portuguesa mas não no
sentido que tem na inglesa. Como caiu na boca da política e a xenofobia, como
diz Sérgio Rodrigues, nunca foi boa conselheira linguística, aqui permanecerá.
Até porque as concorrentes nacionais pecam na exatidão. Nem todo mandatário ou
situacionista é candidato à reeleição.
Em 2010, quando disputou como incumbente pela primeira vez,
tinha, no fim do primeiro trimestre do ano, mais do que o dobro de ótimo/bom
(76%) do que o Datafolha lhe confere hoje.
Agora a comparação com a isenção do IR se impõe porque ambas
são medidas que a despeito de divisivas (aquela desgostou os fiscalistas e a
escala 5x2, o empresariado), geraram expectativas positivas na maioria do
eleitorado. Nos primeiros meses do ano, quando entrou em vigor, a isenção do
IR, que beneficiou mais de 15 milhões de pessoas, não teria trazido benefícios
porque se trata de um período em que o brasileiro é acossado por matrícula e
material escolares, IPTU e IPVA. Mas o terceiro trimestre já se iniciou e,
ainda assim, a medida não inverteu curva alguma.
Em 2002, a capacidade que teve de ir para cima de Serra e
ganhar aquela eleição não se aplica hoje apenas pela diferença de 24 anos que
separam os dois Lulas. O desafiante tem a cara do futuro e o incumbente, a do
passado. Sim, dá para empilhar indicadores positivos e até alguns programas
novos. E também não dá para dizer que se trata de um brechó de seus primeiros
mandatos, mas subscrever a tese da ingratidão do eleitor, esta pantera, é uma
rima que não leva a lugar algum. Até porque não dá para chamar os 3 milhões na
fila do INSS de ingratos.
O Brasil em que Lula foi incumbente com os aplausos de dois
terços a seis meses das eleições não tinha 20 milhões de apostadores nem
acontecia nas redes sociais, dois fenômenos que, conjugados, indicam a inflação
de expectativas em curso. Se o mestre de obras não ficou rico do dia para a
noite porque deixou de pagar IR, a atendente de lanchonete também não o fará se
arrumar um bico no dia de folga que terá se a escala 5x2 vier a passar.
As melhorias decorrentes de políticas públicas são
incrementais e, por isso mesmo, descompassadas das expectativas geradas pelo
algoritmo e pela roleta. Nessa disputa pela satisfação de expectativas, ainda
não se divisa qual é o horizonte do desejo que Lula vai traçar. Até aqui, sobra
desejo, falta horizonte.
É um Lula paternal que se queixa de que o brasileiro não sai
do celular. Pode até sinalizar para a disputa de valores num país em que a
força da religião mostra terreno para a pregação, mas será que tem funcionado?
Não é o que parece.
A derrota de Viktor Orbán é uma boa notícia para Lula porque
mostra que a pressão americana sobre eleições alheias não pode tudo. Mas nem
todo insucesso de Donald Trump traz benefícios ao Brasil. Desde o início da
guerra o preço dos fertilizantes importados, dos quais a agricultura brasileira
é completamente dependente, já subiu 50%.
Desafiantes terão mais facilidade em exibir horizontes nunca
dantes desbravados. Flávio Bolsonaro tem errado pouco e assim permanecerá
enquanto não encontrar minas no seu caminho. A pré-campanha lulista anuncia sua
desconstrução desde a quarta-feira de cinzas, mas a quaresma já vai longe e até
agora nada. Se o filho do ex-presidente ainda não entrou na mira do PT, a
artilharia sobre Fábio Luís da Silva tampouco se esgotou.
Na última entrevista que deu, Lula preferiu se dedicar a
desconstruir sua relação com o ministro Alexandre de Moraes chamando-o de
“companheiro” e dando-lhe conselhos. Isso depois de toda a bem-sucedida
política de enfrentamento do tarifaço ter sido montada em cima do discurso de
que o Judiciário é independente. Costeando o alambrado assim, sem um discurso
claro em defesa de uma reforma inteligível do Judiciário, vai ser difícil para
o presidente se descolar do desgaste que lhe é imposto por este Supremo.
Ainda que afunilado, o cenário não favorece a aposta de que
Lula venha a desistir. A menção a esta possibilidade guarda mais relação com a
paciência esgotada para a disputa entre aliados nos palanques regionais, vide o
mais cabeçudo deles, no Rio Grande do Sul, quando teve que convencer o PT a
abrir mão em favor da candidatura mais competitiva do PDT. Uma coisa é fazer um
governo de transição, como havia prometido em 2022 e não cumpriu. Outra é fugir
da raia a esta altura do campeonato. É mais desonroso do que ser derrotado.

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