Declarações e atos da família subordinam interesses
brasileiros à aliança com os Estados Unidos
Flávio Bolsonaro fez uma palestra na CPAC, principal
conferência conservadora dos Estados Unidos, no último sábado. Como era de
esperar, em seu discurso atacou as elites globalistas, o ambientalismo, a
agenda woke e o Estado profundo; protestou contra a prisão do pai e acusou o
presidente Lula de se alinhar com a China — propondo, em contrapartida,
alinhar-se aos Estados Unidos se eleito presidente.
Para Flávio, “o Brasil é a solução da
América para quebrar a dependência da China em minerais críticos”. Segundo ele,
a aliança Brasil-Estados Unidos se baseia no fato de a América precisar de
“cadeias de suprimentos seguras para materiais críticos, um parceiro confiável
no hemisfério e um mercado maciço para bens e serviços norte-americanos. E o
Brasil precisa de três coisas: ajuda no combate aos cartéis de drogas
transnacionais, investimentos e tecnologia”. Essa aliança, como se vê, é
profundamente assimétrica: um lado provê matéria-prima; o outro, produtos
manufaturados e de alto valor agregado; um lado cede o território, o outro
provê proteção. Patriotismo peculiar.
Ao contrário do que alegou parte da esquerda, Flávio não
pediu intervenção americana nas eleições brasileiras — disse explicitamente que
“não queremos interferência nas eleições brasileiras, como o governo Biden fez
para trazer Lula ao poder”. Denunciou, porém, uma “enxurrada de dinheiro da
Usaid e interferência maciça do governo Biden” e pediu que, desta vez, tenhamos
eleições livres e justas, baseadas “em valores de origem americana”. Não
valores democráticos, valores americanos.
O discurso de Flávio se insere numa longa sequência de
declarações e atos da família Bolsonaro que subordinam interesses brasileiros à
aliança com os Estados Unidos. Seu irmão Eduardo pediu intervenção americana
punindo ministros do Supremo que tinham condenado seu pai. Quando a resposta
americana veio na forma de duríssimas tarifas que prejudicaram a indústria e os
empregos brasileiros, ele não hesitou em defender as tarifas contra o setor
produtivo nacional.
Em nota pública assinada em conjunto com Paulo Figueiredo,
Eduardo disse que “o presidente Trump, corretamente, entendeu que Alexandre de
Moraes só pode agir com o respaldo de um establishment político, empresarial e
institucional que compactua com sua escalada autoritária”, e que “esse
establishment também precisa arcar com o custo desta aventura”. O patriota
Eduardo defendeu que os Estados Unidos punissem empresários e trabalhadores
brasileiros.
Na sexta-feira passada, reportagem do jornal The New York
Times documentou o trabalho de lobby de Eduardo e Flávio Bolsonaro, que
entregaram dossiês ao Departamento de Estado e à Casa Branca pedindo que PCC,
Comando Vermelho e outras facções criminosas sejam considerados “organizações
terroristas estrangeiras” nos Estados Unidos.
Originalmente, essa denominação era reservada a organizações
como Al-Qaeda e Estado Islâmico, mas, recentemente, Trump passou a incluir
organizações criminosas como os venezuelanos Tren de Aragua e o Cartel de los
Soles (expressão para designar a ação difusa de agentes corrompidos do Estado
venezuelano). Foi com base nessa designação que Trump justificou o bombardeio
de navios no Caribe e a posterior ação militar que invadiu a Venezuela e
prendeu o ex-presidente Nicolás Maduro. Se as facções brasileiras forem
consideradas “organizações terroristas estrangeiras”, isso criaria base
jurídica nos Estados Unidos para justificar ações em território brasileiro — o
mesmo instrumento usado no caso da Venezuela. Fazer lobby por isso certamente
não parece patriótico.
Se ações para permitir intervenções americanas em território
brasileiro e punir economicamente empresários e trabalhadores brasileiros não
são suficientemente impatrióticas, podemos lembrar também de Jair Bolsonaro
batendo continência para a bandeira americana em Dallas, em 2019, adaptando seu
slogan para “Brasil e Estados Unidos acima de tudo”.
Na ânsia de derrotar a esquerda e libertar o patriarca, a
família Bolsonaro está disposta à integração subordinada aos interesses
americanos, entregando nossos minerais críticos, punindo o setor econômico
brasileiro e arriscando a soberania territorial da nação. Seu patriotismo tão
celebrado é um patriotismo de araque, que trocou o verde e amarelo pelo
vermelho, azul e branco.

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