O indicado carrega no passivo de imagem o episódio de
2016, quando seu nome apareceu em interceptações telefônicas no contexto da
crise do impeachment de Dilma Rousseff
A indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal
(STF) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, às vésperas da campanha
eleitoral, tem bônus e ônus. Ocorre num cenário político-institucional
delicado, com a Corte muito desgastada por causa do envolvimento dos ministros
Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com o Banco Master, e dividida quanto à
condução desse processo pelo novo relator do caso, ministro André Mendonça —
sem falar no racha entre os ministros quanto à aprovação de um Código de Ética
para a magistratura. A eventual aprovação do nome de Messias reforçará a
associação da imagem da Corte à de Lula, que passaria a ter três ministros, com
Cristiano Zanin e Flávio Dino, fortemente ligados ao seu governo. Isso produz
efeitos ambíguos, com ganhos políticos na relação com os demais poderes, porém,
sob desgastes eleitorais imprevisíveis.
A escolha de Messias atende a um critério
clássico de confiança política, muito mais do que o notório saber jurídico, que
virou uma licença poética na aprovação de nomes para a Corte pelo Senado.
Diferentemente de indicações mais “independentes” dos primeiros mandatos, a
partir de critérios identitários raciais e de gênero, Lula opta por alguém com
trajetória administrativa consolidada dentro do Estado e alinhamento direto com
seu projeto. Messias construiu a carreira na Advocacia-Geral da União (AGU), ocupou
funções técnicas e políticas em diferentes governos petistas e, desde 2023,
atua como principal defensor jurídico do governo federal. Essa trajetória
sugere um ministro previsível com visão jurídica afinada com a agenda do
Executivo, especialmente em temas como políticas públicas, regulação econômica
e prerrogativas da União.
Sua formação acadêmica e experiência no Banco Central, no
BNDES e na Casa Civil conferem densidade técnica à indicação, o que facilita
sua defesa na sabatina do Senado. Além disso, ao indicar alguém de dentro da
AGU, Lula reforça a tradição de ministros oriundos dessa carreira, como Gilmar
Mendes, Dias Toffoli e André Mendonça, indicados respectivamente por Fernando
Henrique Cardoso, Lula e Jair Bolsonaro.
No entanto, os custos potenciais são expressivos. O
principal deles é o reforço da narrativa — já disseminada na opinião pública e
explorada pela oposição — de que o STF estaria com uma atuação governista. Para
o cidadão comum, a separação entre os Poderes é frequentemente abstrata.
Executivo, Legislativo e Judiciário tendem a ser percebidos como partes de um
mesmo sistema, cujo desempenho global recai, em última instância, sobre a
liderança presidencial. Nesse sentido, ao ampliar o número de ministros identificados
com Lula, o governo assume o risco de “internalizar” o desgaste do próprio
Supremo.
Esse risco é particularmente sensível num momento em que o
STF enfrenta críticas relacionadas à sua atuação política, ao protagonismo em
temas legislativos e a controvérsias envolvendo investigações e decisões
monocráticas. Ao associar ainda mais a Corte ao governo, a indicação de Messias
pode produzir um efeito de contaminação cruzada: desgastes do STF passam a
atingir Lula e crises do governo passam a repercutir diretamente na imagem do
Supremo. O cidadão comum acredita que o presidente da República é que deveria
pôr ordem na casa.
Barganha política
Outro ponto crítico é a reação do Senado. A tramitação já
enfrentou resistências lideradas por Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do
Senado, que chegou a avisar que seguraria o processo. Aparentemente esse atrito
foi superado. Na verdade, a aprovação do nome de Messias é uma moeda de troca
de Alcolumbre e seus aliados na reorganização do governo, devido à saída de 14
ministros que disputarão as eleições. Por outro lado, uma aprovação apertada ou
conflituosa pode fragilizar ainda mais a legitimidade do indicado na sua
chegada ao Supremo. Nada que não seja superável, porém somente, ao longo do
tempo, com a atuação do novo ministro, ou seja, após as eleições.
Messias carrega no passivo de imagem o episódio de 2016,
quando seu nome apareceu em interceptações telefônicas no contexto da crise do
impeachment de Dilma Rousseff, o que o tornou conhecido nacionalmente como um
assessor zeloso, que cumpre qualquer tarefa. Embora isso não desabone sua
capacidade jurídica, o fato é sempre lembrado pela oposição e reforça sua
identificação com o núcleo político do lulismo, o que dificulta a construção de
uma imagem de independência no início de sua atuação no STF.
Com a indicação de Messias, Lula busca previsibilidade
decisória e alinhamento em temas sensíveis, mas pode estar contribuindo para
aprofundar uma politização do Supremo e a judicialização da política. Em um
cenário de polarização intensa, no qual o principal adversário — representado
por Flávio Bolsonaro — explora justamente a crítica às instituições, esse
movimento pode ter efeitos eleitorais deletérios.
Entretanto, a aprovação de Messias para o Supremo só não são
favas contadas porque o jogo é casado com a reforma ministerial. Entretanto, os
interesses políticos e o contexto eleitoral de Alcolumbre no Amapá reforçam sua
aproximação com Lula. Presidente da Comissão de Constituição e Justiça, onde
ocorrerá a sabatina, o senador Otto Alencar (PSD-BA) pretende colocar o nome de
Messias na pauta assim que receber a indicação das mãos do presidente do
Senado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário