Brasília assistiu a rebeliões e golpes de Estado. Hoje é
uma cidade grande, com os desafios inerentes ao seu tamanho, com atividade
política própria. O tempo da aventura no Planalto Central terminou
O presidente Juscelino Kubitschek foi objetivo. Concluiu
apenas os principais prédios da nova capital da República na data da
inauguração: 21 de abril de 1960. Foram terminados o Palácio da Alvorada, o do
Planalto, o Supremo Tribunal Federal, o Congresso, o esqueleto da Catedral, os
ministérios, a igrejinha Nossa Senhora de Fátima, as duas asas — Sul e Norte —,
o Lago Paranoá e poucas superquadras. Os pioneiros terminaram de construir a
cidade que hoje é a terceira maior do Brasil, depois de São Paulo e Rio de
Janeiro.
Na década de sessenta, no século passado, Brasília era uma
aspiração. O presidente Jânio Quadros, que governou por apenas oito meses e
alguns dias, renunciou a seu cargo, fugiu para São Paulo, onde ficou homiziado
na base aérea de Cumbica. Dali foi para o exílio. Quando saiu de
Brasília, disse que jamais voltaria a "esta cidade malsinada". Fez
uma única obra em Brasília. Ordenou a construção de um pombal na praça dos Três
Poderes. João Goulart, o Jango, também não fez nada em favor da cidade. Ele
governou do Palácio das Laranjeiras, no Parque Guinle, no Rio de Janeiro.
Foi naquela cidade que ele fez o famoso
comício da Central do Brasil, na frente ao então Ministério da Guerra. Os
generais assistiram da janela ao desenrolar daquela crise política. A
primeira-dama Maria Teresa Goulart passou a maior parte do governo do marido em
Madri, na Espanha. Sua primeira participação em ato público foi no comício da
Central. O casal reencontrou-se em Brasília, na Granja do Torto, para reunir
seus pertences e viajar para Porto Alegre, onde deveria resistir ao golpe
militar, junto com o chamado dispositivo do general Assis Brasil, então chefe
da Casa Militar da Presidência.
O dispositivo não funcionou. O casal fugiu às pressas para
uma fazenda de sua propriedade no Uruguai. Jango só retornou ao Brasil para ser
enterrado em São Borja, no Rio Grande do Sul. O Marechal Humberto Alencar
Castello Branco, cearense, foi eleito pelo Congresso Nacional em 1964 o novo
presidente do Brasil. Juscelino Kubitschek, já senador por Goiás, votou a favor
dele, pensando que o golpe teria curta duração. Ele sonhava com a candidatura a
presidente da República em 1965. Tancredo Neves, ao seu lado, votou contra.
Posteriormente, JK foi cassado pelo comando dos governos militares, junto com
dezenas de parlamentares.
Muita gente fugiu pulando o muro das embaixadas. Eram poucas
em Brasília. A dos Estados Unidos já funcionava naquela época. Mas ninguém se
atreveu a buscar asilo ali. O governo dos Estados Unidos apoiou o golpe
militar. A da Tchecoslováquia, país comunista que não existe mais, ao
contrário, foi quase invadida por parlamentares que fugiam da repressão. Os que
ficaram foram presos e recolhidos no Teatro Nacional, que, na época, estava
inacabado. Hoje ele está fechado porque o governo do DF não fez a necessária
manutenção. Depois, os presos foram transferidos para quartéis do Exército.
1964 foi um ano muito difícil para o país. A política econômica fortemente
restritiva provocou uma recessão severa. O desemprego foi alto e a inflação,
pesada. Ninguém podia reclamar porque a repressão era implacável.
O Distrito Federal foi governado desde sua criação no
Planalto Central por um indicado pelo presidente da República. No início, seu
título era de prefeito. Depois, foi promovido a governador. Hoje, o brasiliense
vota para governador, senador, deputado federal e deputado distrital. A
política é semelhante à de outras capitais.
Brasília abrigava, no final de 1960, segundo o IBGE, 140 mil
habitantes, os pioneiros, que aceitaram a missão de viver numa cidade de clima
frio, seco e pouquíssimas diversões. Era uma grande cidade pequena, cujos
habitantes temiam o retorno da capital para o Rio de Janeiro. A cidade
assistiu a rebeliões e golpes de Estado. Sobreviveu a todos. Conseguiu
desenvolver-se e acolher bem seus hóspedes, receber os Poderes da República e
mais de uma centena de embaixadas. Hoje é uma cidade grande, com os desafios inerentes
ao seu tamanho, com atividade política própria. O tempo da aventura no Planalto
Central terminou.
Nos anos 60, o pessoal ia pescar e caçar patos nos primeiros
quilômetros da estrada para a Bahia. Hoje, a região é recortada por conjuntos
habitacionais. Na saída sul, a BR-040, a situação é a mesma. Condomínios
maiores ou menores. A área do Distrito Federal não ocupada pelos seus
habitantes é utilizada por produtores rurais. O Cerrado, antes conhecido como
terra inservível, agora é utilizado para a produção de grãos. Brasília, além de
ser o cérebro das altas decisões nacionais, abriu as portas do brasileiro para
o Centro-Oeste. O país moderno apareceu nesse período. O país de hoje não
guarda nenhuma semelhança com aquele de seis décadas atrás. Obra de um político
capaz de enxergar além das picuinhas nacionais e da polarização entre ditadura
militar e populismo radical.

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