Desafio é atualizar o discurso para a nova realidade
geopolítica e tecnológica
A cinco meses das eleições, o PT reunirá em Brasília, a
partir desta sexta-feira (24), dirigentes e delegados no 8º congresso nacional,
instância máxima decisória da sigla, a fim de debater a conjuntura política,
definir estratégias para a disputa eleitoral e aprovar diretrizes para o futuro
do partido, que completou 46 anos em fevereiro.
Tendo como prioridade a reeleição do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, o desafio é atualizar o discurso para a nova realidade
geopolítica, a revolução no mundo do trabalho diante das novas tecnologias, e
as mudanças nas demandas sociais e econômicas, a fim de tentar convencer os
brasileiros de que o partido merece continuar no poder. Lula irá discursar no
encerramento do evento no domingo (26). O presidente nacional da legenda,
Edinho Silva, abre o congresso com uma análise do cenário político, e o lançamento
de nova campanha de filiação.
Com uma pauta extensa, as lideranças e os
600 delegados de todo o país, eleitos pela militância, devem concentrar os
debates sobre dois documentos, que traçam os caminhos para a eleição de
outubro: o primeiro, da subcomissão que discutiu conjuntura e tática eleitoral;
e o segundo, do grupo que elaborou uma proposta de programa de governo, a ser
submetido à campanha de Lula à reeleição. Segundo fontes que participam dos
trabalhos, as discussões sobre o novo programa partidário, a atualização do
estatuto e a remodelação da Fundação Perseu Abramo devem ficar para 2027.
Relator do novo programa partidário, o ex-ministro e
ex-presidente do PT José Dirceu disse ao Valor que a
necessidade de realizar este congresso é discutir a “sucessão presidencial”, e,
“principalmente, as mudanças geopolíticas, como o crescimento da extrema
direita e do fascismo no mundo, a política de guerra do [presidente Donald]
Trump, a interferência no Brasil pelo tarifaço, a tentativa de influenciar o
Supremo”.
A última vez que o PT discutiu o programa partidário foi em
2017, ano da prisão de Lula e um ano antes da eleição de Jair Bolsonaro,
observou Dirceu. Quase dez anos depois, é Bolsonaro quem se encontra preso,
cumprindo pena pela tentativa de golpe de Estado, enquanto, no mundo, a China
tem um papel muito maior, os Brics se consolidaram e a hegemonia dos Estados
Unidos está em xeque, acrescentou. Ainda nesse período, “tivemos a pandemia, a
invasão da Venezuela, as guerras envolvendo Estados Unidos, Israel, Irã, e
Rússia e Ucrânia”, completou.
Não é absurdo querer mexer na meta de 3% da inflação”
— José Dirceu
O texto do programa de governo que será debatido enumera 13
itens que deverão ser prioridade de eventual quarto mandato, como a defesa da
democracia por uma frente ampla progressista, a maior proteção dos direitos das
mulheres, com combate à escalada dos feminicídios, garantia dos direitos
elementares dos cidadãos, em especial, das minorias, como indígenas e LGBTQ+,
valorização do agronegócio e ampliação da reforma agrária, proteção do meio
ambiente.
Prevê ainda soberania energética e mineral, “pautada por um
Plano Nacional para a exploração responsável do pré-sal, da Margem Equatorial e
de minerais críticos”; a “regulação democrática das big techs e o combate à
desinformação”; e a construção de uma inteligência artificial nacional.
No trecho sobre a economia, o PT critica o avanço
neoliberal, e considera “imperativo construir uma alternativa à captura
estrutural do Banco Central pelos agentes rentistas, cujo funcionamento atual
submete a política de câmbio e crédito à lógica da especulação financeira”. O
partido defende uma gestão “democratizada e compartilhada com os setores
produtivos e representantes do trabalho” para assegurar a autonomia técnica da
instituição. Defende uma “meta permanente de juros de um dígito”, com apoio nas
reservas internacionais e no controle inflacionário.
Além dos juros elevados, Dirceu também defende que o centro
da meta de inflação de 3% seja revisto. “Não é absurdo querer mexer na meta,
essa meta de 3% é um erro gravíssimo que foi cometido por nós mesmos”,
criticou. “O país pode viver com juros de 9%, nós temos que ter esse objetivo a
médio prazo”, reforçou. Para isso, ele sustenta que são necessárias reformas no
BC, no Conselho Monetário Nacional (CMN), prosseguir com a reforma tributária e
aprovar uma reforma política. A meta contínua de 3% foi definida em 2024 pelo
CMN, do qual fazem parte os ministros da Fazenda, do Planejamento e o
presidente do BC.
O secretário nacional de comunicação do PT, Éden Valadares,
explicou que a proposta de programa de governo em debate é apenas um
“texto-guia”, que ainda poderá ser modificado até o fim do congresso.
Dirceu ressaltou que não se trata do futuro programa de
governo da campanha de Lula. Uma proposta nesse sentido ainda será elaborada e
submetida pelo PT, posteriormente, aos demais partidos que farão parte da
frente ampla pela reeleição de Lula, como PSB, PCdoB, PV, Psol, Rede e PDT. “O
PT tem um programa, mas isso não quer dizer que será o programa que o Lula vai
defender”, concluiu.

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