Concluí a leitura de “O Horizonte, conversas sem ruído entre
Sanguinetti & Mujica” (Alejandro Ferreiro e Gabriel Pereyra -
organizadores, L&PM Editores). Confesso que senti uma ponta de inveja em
relação ao Uruguai e seu povo. No Brasil, os espaços de diálogo estão cada dia
mais estreitos. As bolhas ideológicas não conversam entre si, não ouvem os
argumentos divergentes, digladiam, polarizam de forma estéril, não para fazer
do debate um caminho para a construção de consensos, mas para alargar as
distâncias e desqualificar os adversários.
No plano global, vemos um Trump déspota
oferecer ao mundo tempos obscuros e de instabilidade permanente. Às vezes, se
assemelhando à uma criança jogando WAR, ameaçando invadir a Groelândia e Cuba,
anexar o Canadá, ridicularizando os parceiros europeus que compartilham a OTAN,
sequestrando o ditador venezuelano em seu território nacional, atropelando o
Congresso americano e a Suprema Corte, entupindo suas redes sociais com falas e
bravatas intolerantes e violentas. Nesta semana, os limites foram rompidos com
a supostamente devastadora ameaça, com hora marcada, de exterminar a secular
civilização persa e a população iraniana, caso o Estreito de Ormuz não fosse
imediatamente liberado. Mais uma vez, teve que recuar
“O Horizonte” nos transporta para um outro universo. Dois
estadistas, ex-presidentes do Uruguai, um liberal, outro socialista, dialogando
de forma profunda, respeitosa, democrática, densa, lúcida sobre os mais
diversos temas da vida. Conversam sobre tudo: política, economia, filosofia,
história, destinos do Uruguai, futuro do mundo, família, administração pública,
desafios contemporâneos, entre outros assuntos. O experiente e extremamente
preparado Julio María Sanguinetti foi presidente do Uruguai em dois mandatos
(1985-1990, 1995-2000) pelo Partido Colorado, organização de centro-direita.
Foi ele que anistiou José Mujica por sua militância nos Tupamaros, organização
guerrilheira de resistência à ditadura. Pepe Mujica presidiu o país de 2010 a
2015, tendo se candidatado pela Frente Ampla, movimento progressista de
esquerda. Tornou-se uma referência internacional por seu carisma, simplicidade
e profundidade de suas reflexões.
Impossível reproduzir aqui a riqueza do diálogo entre os
dois estadistas uruguaios, de correntes ideológicas diferentes, nos seis
encontros promovidos pelos jornalistas organizadores. Neles, apesar das
eventuais divergências políticas, dão sucessivas mostras de carinho pessoal e
respeito.
Deixo apenas duas passagens que encarnam a sabedoria
dos dois e o conteúdo do livro. A certa altura, disse Sanguinetti: “O erro é
acreditar que a democracia é um sistema perfeito e, em segundo lugar, achar que
a democracia garante um bom governo, porque isso depende dos cidadãos. O que a
democracia garante é a liberdade de nos livrarmos de um governo de que não
gostamos por meio de um método pacífico”. Em outro trecho, Pepe Mujica revela
sua visão de vida: “Para mim, a frugalidade é uma maneira de viver (...).
Porque se eu deixar que as necessidades se multipliquem ao infinito, tenho que
viver para cobrir essas necessidades e não me sobra tempo para fazer as coisas
que me motivam (...). Pobre é quem precisa de muito”.
Para quem gosta da boa política, vale muito a
leitura.

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