Cada especialista em Brasil apontou alguma ausência:
faltaram pureza racial, um colonizador mais avançado, partidos políticos com
valores definidos. Talvez fosse melhor falar do que temos de sobra, como
hipocrisia e carisma na sua forma mais degradante: o populismo e uma incurável
parcialidade. Entre nós, ignorar a lei e o bom senso é sinal de importância
social.
Nosso modo de encarar esse dilema segue um inabalável
legalismo. Criamos regras acreditando que um confuso aparelhamento burocrático
soluciona problemas de costumes, tal como Donald Trump acredita que seus
desmesurados portaaviões agenciem a rendição do Irã. É a velha ilusão de que
foguetes e drones resolvem guerras, destruindo muito e perdendo pouco, pois
temos a maior força militar do planeta. Um planeta, aliás, que deixou de ser
vivido em sincronia com a natureza.
Lançar foguetes é como usar a “canetada”
para salvar colegas ou refazer hierarquias em espaços igualitários. Fica-se na
ilusão de que as leis existem, mas elas não são universalmente aplicadas. Não
para nós, mas para eles.
No Brasil, nossos drones, foguetes e porta-aviões são as
leis produzidas pelo nosso “caga-regrismo”, que até hoje imagina que o poder de
legislar opera resolvendo intelectualmente, mas – como os foguetes trumpistas –
aumenta frustrações. É muito mais fácil cair na ilusão de que a lei resolve do
que discutir o que a lei representa numa sociedade que sabe como sua aplicação
é abafada ou simplesmente anulada para certas categorias sociais.
Desde os tempos de Esopo, a fabulação serve como exemplo
para intenções, vaidades e pecados humanos. Uma fábula muito conhecida é a dos
órgãos do corpo humano que um dia resolveram imitar Donald Trump e determinar
qual era o mais poderoso. “Sou eu”, disse o olho. “Não”, berrou a boca, debaixo
da discórdia do nariz, ouvidos, estômago, mãos e pés.
Em meio à polêmica, ouviuse a pequena voz do escondido ânus
e, em seguida, a sua imediata expulsão, como a de um cidadão de última
categoria. “És”, disse o nariz, “um órgão inferior e sujo; não tens nenhuma
importância!”. O humilhado cu retrucou, piscando: “Vou me fechar e vocês verão
o meu poder”. Após alguns dias, todos os órgãos que se achavam donos de um
indiscutível poder dos fortes pediram perdão ao ânus, que voltou a funcionar,
devolvendo – graças ao poder dos fracos – funcionalidade ao corpo.
Assim reza a fábula que, hoje, é literalmente replicada na
estreiteza do Estreito de Ormuz – uma passagem estratégica que, se retraída,
estrangula a fisiologia do mercado energético planetário. O Estreito de Ormuz
ressalta que, antes de sermos países ricos e pobres isolados nos nossos
egoísmos coletivos, somos e continuamos a ser, como diz a fábula, parte de um
conjunto cuja funcionalidade não pode ser trocada pela selvageria da guerra, a
qual nega o que temos de mais sagrado: a nossa humanidade.
*É antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e
heróis’

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