quarta-feira, 1 de abril de 2026

O REI DO GADO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Chá de revelação do PSD sepulta ilusão de 'terceira via' kassabista

Caiado promete indulto a Bolsonaro, mas quer disputar rebanho que já tem dono

Gilberto Kassab apresentou seu novo candidato ao Planalto. É Ronaldo Caiado, o patriarca da direita ruralista. O escolhido já tem experiência em eleições presidenciais. Terminou a de 1989 em décimo lugar, com 0,7% dos votos.

Ao se lançar na disputa, Caiado anunciou que seu primeiro ato no poder seria um indulto a Jair Bolsonaro. No mesmo discurso, prometeu “desativar a polarização”.

Difícil entender como uma coisa levaria à outra. A história mostra que dar impunidade a golpistas não pacifica o país. Ao contrário: aprofunda divisões e serve de incentivo para novas tentativas de ruptura.

A indicação de Caiado sepultou a ilusão de que o PSD encarnaria uma “terceira via” centrista. O candidato deixou claro que trafega na mesma pista que o bolsonarismo. “Nós ganhamos do PT em 2018”, disse, enfatizando a primeira pessoa do plural.

Caiado acrescentou que seu objetivo é garantir que o petismo “não seja mais opção no país”. A frase ecoou uma célebre declaração de Jorge Bornhausen, que planejava “se ver livre dessa raça” por 30 anos. Aos 88, o ex-senador segue na ativa como conselheiro de Kassab.

O chá de revelação do PSD frustrou Eduardo Leite, que ainda sonhava convencer o dono da sigla a lançá-lo. Sua promessa de apoiar o vencedor da disputa interna durou pouco. Ele criticou a escolha e evitou declarar voto em Caiado.

O gaúcho não está sozinho. Dos sete governadores do PSD, quatro ignoraram o anúncio do presidenciável. Na maioria dos estados, os chefes da legenda já se comprometeram com Lula ou Flávio Bolsonaro.

Boicotado na própria legenda, Caiado terá pouco tempo para se mostrar competitivo. Seu maior trunfo é o alto índice de aprovação em Goiás, onde sua família está ligada ao poder desde o Império. Em dois mandatos de governador, ele investiu no discurso linha-dura na segurança. A aposta deve ser reprisada na campanha ao Planalto.

O desafio é suavizar o jeitão de rei do gado para buscar votos fora do cinturão do agro. Não será tarefa fácil. A julgar pelas pesquisas, o rebanho que ele cobiça já tem dono.

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