A Sociologia da Medicina é Sociologia: é a aplicação de
critérios de métodos metodológicos de análise e de interpretação de
processos sociais, de relações interpessoais e de relações intergrupais,
àquela matéria de interesse médico constituída pela Etiologia e Ecologia
Sociais de doenças, pelos componentes sociais ou socioculturais de terapêutica
e, ainda, pelas relações entre médicos e enfermos, entre enfermos e suas
famílias, entre médicos e famílias e ambientes socioculturais de enfermos,
entre médicos – higienistas, sanitaristas, psiquiatras – e comunidades e
aquelas suas instituições e aqueles seus complexos mais relacionados com os
problemas de deterioração da saúde, de conservação e de defesa da saúde, de
promoção da saúde. Saúde compreendida no seu sentido mais amplo, isto é, além
do físico, e alcançando o bem-estar psicossocial das pessoas sociais, membros
de um grupo, em particular, e de uma comunidade e, mais do que isto, de um
sistema sociocultural em geral.
Gilberto Freyre, Médicos, doentes e contextos
sociais: uma abordagem sociológica. p. 61.
No ano de 1987 o Brasil estava nos debates
constituintes, que nos proporcionaram a Carta Democrática de 1988. Foi nesse
ano que houve o acidente radioativo com o Césio 137, que a NETFLIX acertou em
investir no tema como uma série brasileira em cinco capítulos, alguns anos após
a emergência sanitária por conta da COVID-19 e em tempos de manifestações
negacionistas sobre as Vacinas. Assim, “Emergência Radioativa” ganha uma força
reflexiva para além de uma memória, mas nos permite observar como a gestão pública
pode lidar com situações de emergência.
Relembremos dos gestores da cidade turística onde ocorre o
filme Tubarão, que temiam o “pânico” desnecessário na população, que afastaria
os lucros com essa atividade. A ideia de que a “economia não pode parar” é um
valor do fundamentalismo neoliberal que não compactua com os princípios
democráticos. Aqueles que um dia se deixaram levar por esse “atalho” devem se
posicionar com suas manifestações pretensamente moderadas diante do que se
passou recentemente em nossa história política brasileira.
A qualidade da série parte da importância do quanto uma
“governança protetora” se forma em condições de uma emergência que poderia
atingir proporções inimagináveis. Intelectuais e vida pública são observados na
correria de Doutores em Física Nuclear para salvar vidas. As medidas
restritivas são feitas no intuito de contenção de ricos que colocariam a saúde
pública sobre um alto nível de pressão nos atendimentos hospitalares. Além
disso, o debate sobre a ética da convicção e a ética da responsabilidade se faz
presente na cena da Assembleia dos Profissionais de Saúde em Greve; no momento
que profissionais da saúde da Marinha se apresentam como voluntários para o
Diretor do Hospital Naval Marcílio Dias, com intuito de salvar mais vidas, ou
na cirurgia, ou na entrada do “camarada médico” soviético na cirurgia, no
limite do tempo para garantia de seu sucesso.
O elenco das principais vítimas foi um grande acerto na
seleção não apenas na interpretação, quanto na percepção de serem negros e
pardos, ou seriam “quase brancos e quase pretos” naquele terremoto de outro
tipo. Destaque para Bukassa Kabengele que, em alguns momentos, me fez lembrar
as interpretações marcantes do saudoso Milton Gonçalves (1933 – 2022 que foi
garoto-propaganda da Frente Republicana Presidencialista no plebiscito de 1993.
Além disso, o público perceberá outro Paulo Gorgulho, ou seja, muito mais
amadurecido que aquele que esteve nas telas na minissérie Decadência de Dias
Gomes em 1995. Por fim, somos brindados pela atuação de Tuca Andrada como o
Governador Roberto Correa (nome fictício para o Governador Henrique Santillo,
que nos faz pensar sobre “história comparada” quanto à relevância do fator
político e democrático na gestão pública de saúde).
Lembremos que Vigilância Sanitária é hoje muito mencionada.
Logo, a atitude de personagem-ficção Antônia Quadrado, que leva para a mesma a
fonte de contaminação – mesmo após o classificar como “força do mal” –
demonstra um pouco das características femininas com o cuidado com a saúde. Um
indicador de que o tema da saúde pública não pode estar distante dessa “fala
feminina” que muito bem coloca a relevância da ciência nesses tempos de
negacionismo. Nós observamos muito melhor o lado feminino daquela Goiás de
1987, onde as mulheres ainda ganhavam espaço nas suas conquistas sociais.
Além disso, estamos em tempos em que o SUS não existia, o
que faria um telespectador desavisado não perceber o grau de dificuldades sobre
o tema da saúde pública diante de um “contrato quebrado” entre dois entes
privados que implica em impactos no tratamento com uso de radioterapia. A
coleta dos dados tanto dos que foram impactados pela emergência radioativa
quanto sobre a emergência da COVID-19 nos permitiria quais teorias
fundamentadas? Por hora, um presidenciável formado em medicina sai de Goiás
após aumentar os valores da pensão vitalícia das vítimas (grupo de 603 pessoas
que estavam sem reajuste há sete anos). Ou seja, as vidas e os números das
finanças públicas podem mudar ao sabor da conjuntura política.
*Vagner Gomes é Doutorando do PPGCP-UNIRIO.

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