O espaço para relaxar a política monetária tende seguir
apertado, como aponta a curva de juros, que antecipa cortes relativamente
modestos da Selic este ano
Quase seis semanas depois de o conflito iniciado, o
cessar-fogo, de duas semanas, saiu. Até certo ponto, foi uma surpresa: Israel
não parecia interessada em parar os ataques, os EUA não pareciam ter um caminho
politicamente aceitável para sair do conflito e o Irã não parecia ter uma
liderança capaz de negociar uma saída. Talvez não por outra razão o que foi
acertado soe tão confuso, com detalhes diferentes aparecendo em línguas e
porta-vozes distintos. O que, claro, coloca em questão se será possível alcançar
um acordo duradouro e o que este contemplará.
Não se quer com isso menosprezar o papel da
diplomacia e a possibilidade de encontrar uma saída para essa guerra. Tomara
que sim. Mas, em essa não ocorrendo, o conflito se estenderá e as consequências
negativas para a economia mundial vão se acentuar, com os preços do petróleo,
do gás e dos fertilizantes subindo mais, com significativos impactos
estagflacionários. Com o tempo, mais instalações produtivas serão destruídas e,
principalmente, os estoques desses produtos, hoje utilizados para atender à
demanda, irão se esgotar.
As projeções para o PIB do Brasil subiram para 1,85%
pelo fato de sermos exportadores líquidos de petróleo
Além disso, muitos governos, inclusive o brasileiro, têm
absorvido parte do impacto da guerra sobre os preços, em especial de
combustíveis, mas isso ficará mais difícil com o passar do tempo, pelo acúmulo
do ônus fiscal daí resultante. Isso em um contexto em que as contas públicas já
vinham se deteriorando, com a dívida dos governos em alta. Com a escalada dos
juros provocada pela guerra, o financiamento dessa dívida está mais caro,
também por aí levando a uma deterioração fiscal adicional. Sem falar, claro, da
esperada expansão dos gastos com defesa, que tende a ocorrer em praticamente
toda parte.
Mesmo em um acordo duradouro sendo obtido, a situação à
frente é mais difícil do que há seis semanas atrás. O cessar-fogo vai limitar,
mas não eliminar o choque estagflacionário. Muitas instalações produtivas foram
destruídas e sua reconstrução levará anos. A passagem pelo Estreito de Ormuz
seguirá complicada. O preço do petróleo não voltará tão cedo ao patamar
anterior. A inflação já subiu e seus efeitos secundários tendem a se estender.
Em toda parte, o espaço para cortar juros seguirá menor do que antes.
Porém, esse quadro não parece inteiramente precificado, com
o mercado, em várias dimensões, ainda apostando que as coisas vão logo voltar a
ficar como antes. Verdade que a cotação do petróleo no mercado futuro subiu
bem, ainda que siga bem abaixo do preço spot. Mas o mercado acionário, por
exemplo, parece ignorar os riscos colocados à frente: o S&P 500, por
exemplo, fechou quarta-feira apenas 1,4% abaixo do patamar de 27 de fevereiro.
É interessante observar como a economia brasileira tem se
saído relativamente bem, em meio a esse não trivial choque externo. Verdade que
a previsão de inflação para este ano subiu bem, de 3,91% na véspera do conflito
para 4,36% no Focus passado. Mas as projeções de PIB subiram (1,82% para
1,85%), as de déficit em conta corrente caíram (US$ 67,8 para US$ 65,0 bilhões)
e as do resultado primário ficaram estáveis (0,5% do PIB). Por sua vez, o real
se valorizou 1,2% frente ao dólar, em contraste com a valorização de 1,6% no
DXY, enquanto o Ibovespa subiu quase 2%. Melhor, portanto, que nas economias
avançadas e na média dos emergentes.
Isso reflete em grande medida o fato de sermos exportadores
líquidos de petróleo, de forma que a alta de seu preço, ainda que impacte a
inflação, tende a favorecer a atividade econômica, as contas externas e as
contas públicas. Não se pode descartar, porém, que esse bom desempenho também
reflita o ganho de competitividade eleitoral da oposição nas eleições
presidenciais de outubro próximo. As pesquisas mostram que as chances de o
senador Flavio Bolsonaro sair vencedor, que eram relativamente baixas até algumas
semanas atrás, subiram bem; hoje, ele empata com o presidente Lula nas
pesquisas para o segundo turno das eleições presidenciais.
Ainda que, se essa análise estiver correta, isso possa
implicar que, a partir de 2027, o país tenha um ajuste fiscal, com menor
aumento do gasto corrente e da dívida pública, o caminho até lá tende a ser
complicado. De um lado, pois o país pode se mostrar mais sensível a um choque
estagflacionário externo mais longo e, talvez, mais forte. Por exemplo, pode
ficar mais difícil manter a atual defasagem nos preços do diesel e da gasolina.
De outro, pois há o risco de termos mais medidas de estímulo fiscal em reação à
evolução das pesquisas eleitorais em favor da oposição.
Ainda que estejamos falando de “apenas” seis meses até as
eleições, o quadro econômico até lá pode complicar bastante, em função desses
dois fatores. O espaço para relaxar a política monetária tende seguir apertado,
como refletido na estrutura a termo da curva de juros, que antecipa cortes
relativamente modestos da Selic este ano. Ora, com o setor público, as empresas
e as famílias bastante endividados, isso significa um elevado risco de uma
crise mais séria, colocando o Banco Central em uma situação bem difícil.
*Armando Castelar Pinheiro, professor da FGV
Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ, é PhD em economia pela
Universidade da Califórnia, Berkeley.

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