Força dos candidatos vai variar conforme lidem com efeito
Trump, casos de corrupção, situação nos estados e eleitor independente
O que as eleições presidenciais de 2022 e 2026 têm em comum?
Os analistas políticos, de forma quase unânime, responderiam: a permanência da
polarização entre o lulismo e o bolsonarismo. Mas isso quer dizer que o enredo
da corrida eleitoral será o mesmo? Aqui estão as diferenças.
Há temas que podem afetar ambos os lados, de maneira a
enfraquecer um ou outro, gerando maior incerteza do que no pleito passado. Na
verdade, existem pelo menos quatro pedras no trajeto cujas dificuldades podem
ser antevistas agora, mas cujos desfechos ainda são imprevisíveis.
A história de 2022 foi um samba de uma nota só. Foi uma
eleição polarizada e a mais concorrida desde a redemocratização, mas o enredo
dividia claramente os presidenciáveis e suas estratégias. O fio condutor era o
desempenho do governo Jair Bolsonaro. Os bolsonaristas defendiam com unhas e
dentes seu líder, aceitando inclusive algum desfecho “heterodoxo” e golpista,
enquanto a oposição comandada por Lula dizia que a reeleição do presidente
significaria a continuação da tragédia simbolizada pela política contra a
covid-19 e mesmo o fim da própria democracia.
Houve episódios emocionantes durante a campanha, como as
loucuras de Roberto Jefferson e Carla Zambelli, porém, o plebiscito da eleição
nunca mudou de sentido. O resultado final foi uma vitória apertada e pelo
negativo, pois Lula venceu principalmente para que o bolsonarismo não
continuasse no poder. Obviamente que agora há também um voto de avaliação do
governo lulista, como sempre ocorre em tentativas de reeleição. Só que o jogo
de 2026 é mais complexo, pois as forças dos candidatos poderão variar na longa
caminhada até outubro conforme lidem com quatro pedras presentes na corrida
eleitoral.
A primeira pedra é o cenário geopolítico,
derivado basicamente da política externa do governo Trump. Suas políticas podem
atrapalhar Lula ou Flávio Bolsonaro, e ambos têm menos controle do que imaginam
sobre essa enorme influência exógena. A boa estratégia será usar os efeitos da
ação trumpista a seu favor, em meio a uma grande incerteza em acompanhar os
momentos de fúria impetuosa ou de confusão do presidente americano - para não
falar de suas amareladas, o já famoso Taco (Trump Always Chicken Out).
Lula perde com os efeitos econômicos da política trumpista.
O preço do petróleo ou novas tarifas podem atrapalhar o caminho da reeleição,
especialmente se tiverem efeitos negativos no custo de vida dos brasileiros.
Por quanto tempo a guerra contra o Irã vai afetar a economia mundial? Ninguém
honestamente sabe.
O risco para o outro lado é outro: Trump é muito mal visto
pelo eleitorado brasileiro, e quem se abraçar demais com ele aumenta suas
chances de derrota. Flávio Bolsonaro não se deu conta que esta não é a eleição
de seu pai, em 2018, e continua propondo um amor carnal com o presidente
americano que a maioria do povo no Brasil não quer.
Imaginem se Trump punir o Brasil por causa do Pix. O culpado
dessa desgraça será o presidente americano, e quem estiver ao lado dele será
seu cúmplice. Não adianta Flávio Bolsonaro dizer que foi o governo de seu pai o
criador dessa instituição nacional. Ele terá que dizer que discorda do
trumpismo e que não aceitará tal interferência na política brasileira. Se fizer
isso, o bolsonarismo terá de mudar toda a sua cartilha de forma relâmpago. Qual
a probabilidade de essa metamorfose ocorrer?
Incertezas grandes podem derivar de uma segunda pedra,
relacionada aos casos de corrupção ou desvio ético. A novela do Master tem
enormes probabilidades de ser marcante no pleito de 2026. Políticos de muitos
lados podem surgir como protagonistas dessa história, que pode tirar muitos
votos. Pelos fatos conhecidos até aqui, a maioria dos envolvidos está ligada ao
Centrão, cujos caciques vinculados ao escândalo tendem a se tornar muito
tóxicos para as candidaturas presidenciais.
Por isso, fazer alianças com alguns desses partidos ou
líderes do Centrão pode ser um tiro no pé. Isso atrapalha mais Flávio
Bolsonaro, que pretendia ter esses parceiros para se vender como a faceta
moderada do bolsonarismo. Se os presidentes do PP e do União Brasil forem
colocados no centro da ribalta do caso Master, quem estiver com eles será visto
como companheiro de corruptos que roubaram dinheiro público e privado.
Só que o caso Master é um combo muito amplo, aparentemente
envolvendo muita gente, e não só do mundo da política. Embora envolva
empresários, funcionários públicos e até uma igreja, seu impacto maior, por
ora, está no possível relacionamento espúrio com ministros do Supremo Tribunal
Federal. Por conta disso, esse escândalo ganha no momento um caráter maior de
crise do sistema político brasileiro.
Ainda não se sabe a dimensão que esse fenômeno terá na
corrida eleitoral, mas duas coisas são certas. A primeira é que Lula, mesmo não
havendo nenhum indício de participação no caso, é mais prejudicado do que a
oposição. O presidente é visto como o fiador último das instituições para o
povo e, ademais, o lulismo aliou-se fortemente com o STF nos últimos anos,
especialmente para contrabalançar sua fragilidade no Congresso Nacional. Uma
segunda coisa também é bem provável: o discurso bolsonarista contra a “ditadura”
do Supremo vai se fortalecer nas eleições, ajudando Flávio Bolsonaro.
A discussão sobre a corrupção e desvios éticos, no entanto,
não termina no caso Master. Em especial, o que Flávio Bolsonaro, junto com o
bolsonarismo do Rio de Janeiro, fez nos verões passados pode ser uma pedra
muito pesada no meio do caminho eleitoral. O escândalo da rachadinha e suas
derivações em lojas de chocolate de fachada com certeza voltarão à boca do
povo. Neste episódio, há uma contradição para o discurso bolsonarista: quem
salvou Flávio Bolsonaro dessa investigação foram dois ministros do STF que os
bolsonaristas querem mandar para casa. Com certeza, o passado não será apagado
numa situação de crise.
A terceira pedra já é velha conhecida da política
brasileira, mas parece que suas armadilhas estão mais perigosas em 2026.
Trata-se da dinâmica regional que afeta as alianças políticas e as estratégias
de conquista do voto majoritário do povo brasileiro. Por exemplo, a entrada de
Ronaldo Caiado na disputa presidencial influenciará eleições estaduais, como as
de Goiás e do Paraná, além de ter o potencial de retirar votos de Flávio no
agro e entre os evangélicos.
Além disso, Bolsonaro filho construiu poucos palanques bons
no Nordeste e há incertezas em Minas Gerais que não existiam em 2022. Mesmo no
Rio, onde o bolsonarismo é forte, o legado desastrado de Cláudio Castro,
cassado por corrupção e com parceiros presos por ligação com o Comando
Vermelho, poderá ter um peso maior do que se imagina.
Lula não escapa dessas armadilhas. Em São Paulo terá uma
disputa duríssima. Há ainda muitas incertezas em Minas. Nos estados do Sul
pouco se avançou eleitoralmente desde a última disputa presidencial, o que se
complica ainda com a briga do PT nacional com a seção gaúcha do partido. E
mesmo no Nordeste, onde o lulismo tem sua maior fortaleza eleitoral, o cenário
não é tão róseo como no passado, com uma disputa difícil no Ceará e uma forte
indefinição no Maranhão.
A quarta e última pedra é o sentimento de cansaço de parte
decisiva do eleitorado, particularmente dos chamados independentes. É um grupo
que sozinho não vence a eleição presidencial. Contudo, dado o quase empate
entre os grupos polarizados, o voto que decidirá o pleito nacional virá de quem
não se perfila automaticamente a nenhum dos polos.
Se em 2022 tais eleitores votaram em Lula porque queriam se
livrar de Bolsonaro e mudar o governo, seu desejo hoje é de renovação, algo que
para os independentes não está representado pelas duas principais candidaturas
ao Palácio do Planalto.
Como as pedras relativas ao trumpismo e aos escândalos de
corrupção podem ter efeitos diversos e ainda incertos sobre Flávio Bolsonaro e
Lula, os eleitores independentes vão esperar para ver, observando o
comportamento desses candidatos para punir o que se tornar o mais rejeitado
entre eles. Afora isso, a dinâmica das eleições estaduais também mexerá com
esse voto não polarizado, de modo que bolsonarismo e lulismo dependem em parte
dos resultados das eleições estaduais.
Outras questões e fatos novos - o Imponderável da Silva,
como diria Nelson Rodrigues - podem surgir no meio do caminho da polarização.
Embora Caiado tenha dificuldades de ultrapassar Flávio Bolsonaro, até porque
demorou para se desvencilhar do bolsonarismo, o seu crescimento em torno de
experiência governamental ou de erros de seu adversário na extrema direita
pode, sim, tornar as eleições mais competitivas e emocionantes.
Até que ponto? É difícil dizer isso agora, mas o caminho
para romper a dualidade presidencial é duro. Surgiram candidatos antissistema
que podem tirar poucos votos dos líderes, mas sua importância maior é gerar
caminhos de decisão eleitoral, sobretudo no segundo turno, para os cansados
eleitores independentes.
De todo modo, a polarização vai ser, no mínimo, moldada por
quatro grandes pedras na corrida eleitoral. Quem lidar melhor com elas vencerá
a disputa presidencial de 2026.
*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela
USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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