Mesmo com toda a inferioridade militar, a heroica
resistência dos iranianos está impondo uma derrota política e moral aos EUA e
Israel
Sempre foi uma tarefa espinhosa estabelecer relações entre
política, interesses de Estado, guerra e moralidade. Atribui-se a Maquiavel a
formulação da autonomia da política em relação às normas morais. Já a guerra,
como disse Clausewitz, é a continuação da política por outros meios. De todo
modo, é certo que a moralidade da política e, por consequência, da guerra
difere da moral do cidadão e do senso comum.
A conduta dos Estados modernos tem sido marcada por duas
leis interdependentes: a lei da conservação e, dela derivada, a lei do conflito
pela sobrevivência. Por isso, estudiosos afirmam ser ainda mais difícil
estabelecer uma conexão entre moralidade e política internacional, já que esta
frequentemente desliza para conflitos armados.
As guerras elevam a degradação dos seres
humanos a seus piores extremos e pressionam ao máximo os limites da
desumanização. Destroem, mutilam, despedaçam e matam, sobretudo inocentes:
crianças, mulheres e idosos. Kant advertia que devemos sentir repugnância às
guerras, pois elas matam menos seres malvados do que acabam por produzir.
Embora a capacidade de ferir, prejudicar e matar o outro
seja inata aos seres humanos, também possuímos um senso moral que nos leva a
sentir repugnância, indignação, compaixão, piedade e solidariedade diante de
atos injustos e violentos. Muitos animais também parecem ter algo semelhante.
No entanto, como seres racionais, ao longo da história elevamos essas reações
ao nível da consciência e as codificamos em direitos e leis.
A desumanidade e a brutalidade das duas guerras mundiais,
especialmente da Segunda, com milhões de mortos, o Holocausto e as bombas
atômicas no Japão, elevaram o nível de consciência da humanidade no sentido de
estabelecer limites. Por isso, os países reunidos na ONU estabeleceram
parâmetros morais, éticos, jurídicos e também religiosos para a condução das
guerras, com base na Carta das Nações Unidas e no Direito Internacional
Humanitário.
A Carta da ONU proíbe a ameaça e o uso da força nas relações
internacionais, salvo em caso de legítima defesa, e estabelece a proteção de
civis e da infraestrutura civil, além de restrições ao uso de armas e métodos
de destruição. Também define regras de tratamento humanitário a feridos e
prisioneiros. Somado ao Estatuto de Roma e às Convenções de Genebra, o
documento compõe um conjunto de normas que tipifica crimes de guerra, como
ataques a civis e à infraestrutura civil, a hospitais, genocídio e outras ações
que violam a soberania e o direito internacional.
Israel e EUA cometeram todos esses crimes de guerra contra o Irã, e Tel-Aviv os cometeu
também contra o Líbano. Os dois países já haviam sido cúmplices no genocídio da
população de Gaza. Lá, as forças israelenses massacraram mulheres e crianças
indiscriminadamente. E um bombardeio norte-americano matou de forma brutal 168
meninas entre 6 e 12 anos, em Minab, no Irã, logo nos primeiros dias da guerra.
Hoje há praticamente um consenso entre os analistas de que
guerra contra o Irã é injusta, desnecessária, desumana e imoral. Sócios no
crime, EUA e Israel traíram o governo iraniano quando este estava
negociando uma solução pacífica. Netanyahu é um psicopata, desprovido de
qualquer senso moral. Tem prazer em destruir e matar. Trump se move pela
mentira, pela loucura narcisista e egocêntrica. Sem honra nem moralidade,
prometeu varrer do mapa uma “civilização inteira”. Quem apoia essas condutas
comete suicídio moral. A maioria dos norte-americanos, mesmo com toda a
hipocrisia, preserva ainda algum senso moral ao se colocar contra a guerra.
A população dos EUA se orgulhava de apresentar seu país como
baluarte da democracia, da liberdade e dos direitos humanos. Trump dinamitou
essa imagem, não tem qualquer compromisso com a paz. Destrói a democracia
interna e degrada a economia mundial. Já Netanyahu, em nome da fantasia
psicopática da “Grande Israel”, quer criar um cinturão de Estados falidos ao
seu redor para realizar o seu projeto hegemonista. Em parceria com os
norte-americanos, conseguiu devastar a Síria, o Iraque e o Líbano. Com a complacência
das monarquias e ditaduras árabes tentam falir o Irã.
Mesmo com toda a inferioridade militar, a heroica
resistência dos iranianos está impondo uma derrota política e moral aos EUA e
Israel. Com inteligência estratégica, o Irã demonstra ser capaz de afirmar sua
condição de potência no Oriente Médio, derrotando a imoralidade da mentira, da
destruição e dos assassinatos. •
Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de
abril de 2026.

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