O efeito da guerra na economia vai além do petróleo e já
pressiona a produção de chips e o setor de alimentos, com a queda na oferta de
fertilizantes
O impacto da guerra na economia vai muito além do petróleo.
Está ameaçando a produção de chips e afetando o setor de alimentos ao reduzir a
oferta de fertilizantes. A escassez de insumos agrícolas chegou a algumas
economias e em dois meses atingirá o Brasil. A inflação reflete este cenário
nos preços, todas as projeções subiram, e por isso, o Banco Central tomou a
decisão de fazer apenas um corte de 0,25 ponto percentual, mesmo os juros
estando tão altos.
Quando a guerra começou, o Brasil já tinha
plantado a sua safra, portanto os produtores brasileiros respiraram aliviados.
O Oriente Médio tem um percentual grande na oferta mundial de fertilizantes e
de matérias-primas usadas nos insumos agrícolas. A safra americana estava sendo
plantada e enfrentou os estilhaços. Só que agora o nosso prazo começou também a
se esgotar, como explica o economista José Roberto Mendonça de Barros, a quem
perguntei quando a conta vai chegar.
—Não vai demorar muito, porque uma parte dessa folga se
esgotou nesses dois meses.
O Brasil diversificou suas compras e importa de diferentes
origens. Isso ajuda, mas não resolve.
— Não dependemos essencialmente de ninguém. Para cada um dos
três elementos, nós temos vários fornecedores. A soja não precisa de
nitrogênio, mas o milho e o trigo precisam e nisso o Oriente Médio é muito
importante, porque produz 40% do nitrogênio do mundo. O enxofre é importante
para fazer o ácido sulfúrico, que é o que prepara o fertilizante fosfatado.
Está faltando enxofre, porque o Oriente Médio tem uma parte bastante relevante
nisso. A Rússia é um importante fornecedor de potássio, mas ela tem sua própria
guerra. Nós não temos muito mais tempo, porque se passaram dois meses. Tem mais
um mês. Mas os preços aumentaram, esse é o ponto. O choque de custos já
ocorreu, agora resta saber se vai ter o choque de suprimento — explicou
Mendonça de Barros.
A data de plantio é uma janela, e por este motivo, o
agronegócio ainda não está no sufoco. Há esses dois problemas: o custo aumentou
e há risco de faltar produto, se a guerra continuar. Na MB Agro, o cálculo é
que a inflação de alimentos que estava prevista para ser 2,5%, agora deve ficar
em 5%. E pode ser mais, se a guerra não terminar logo.
O professor Felippe Serigati, da FGV Agro, acrescenta um
ponto de preocupação com o agro este ano. O risco de antecipação do El Ninõ.
— As primeiras estimativas eram de que o fenômeno se
abateria sobre o Brasil no fim do terceiro trimestre. As probabilidades de que
chegue antes, durante o terceiro trimestre, vêm aumentando. Isso afeta a safra
de inverno. O El Niño representa seca no cerrado e aumento de chuvas no sul. Se
ele chegar antes vai diminuir o tempo em que o agronegócio atua com o chamado
clima neutro.
O agronegócio nos preocupa pelo tamanho do setor na
economia, mas há outros gargalos que estão se formando por causa da guerra,
explica Mendonça de Barros.
— No primeiro mês do fechamento do Estreito de Ormuz, os
preços subiram, mas o sistema continuou operando. A partir do segundo mês, além
do choque de preços que aconteceu, começa a ter problemas de suprimento.
Falta combustível, falta produto para a cadeia longa da
petroquímica, mas falta também o gás hélio.
—O gás hélio é usado nas foundries, as fábricas de chips, e
30% da oferta mundial sai do Catar. Os estoques de petróleo da Coréia do Sul
tendem a cair a níveis insustentáveis durante o mês de maio. A primeira coisa
que muitos países fazem é proibir a exportação. A China está bloqueando
exportação de fertilizantes, para defender o mercado interno. A Suécia está
estudando racionamento — diz Mendonça de Barros.
Falei ontem com uma alta fonte de um país árabe produtor de
petróleo, que me disse que, até agora, a produção caiu entre sete a nove
milhões de barris por dia. Mas ele tem uma visão diferente da dos analistas.
Acha que quando a guerra terminar é possível restabelecer a produção em
semanas, e não em meses. E que os países da OPEP decidiram aumentar a produção
assim que a logística for restabelecida.
É isso que o Banco Central quis dizer com há incerteza sobre
“duração, extensão e desdobramentos” do conflito no Oriente Médio. E o fato de
que os impactos do conflito “na cadeia de suprimentos global” afetam a inflação
no Brasil. Por isso reduziu os juros em apenas metade de meio ponto e falou em
“serenidade e cautela”.

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