Em vez de terminar o ano em horríveis 12%, Selic deve
ficar acima de terríveis 13%
Pessoas e empresas vão ficar com a corda financeira no
pescoço por mais tempo
Os preços voltaram a aumentar, grosso modo por
causa de alimentos que por vezes apanham do tempo desfavorável nesta
época e por causa de combustíveis —é guerra. A gente esqueceu a guerra, mas a
guerra ainda vai nos lembrar de que ela existe.
Logo antes da guerra, previa-se que a taxa básica de juros, a Selic, definida
pelo Banco
Central, cairia para 12% no final do ano, ainda horrível. Agora, a mediana
dessas projeções
de economistas compiladas pelo BC (Boletim Focus) está em 13%. Os
colegas desses economistas, os que lidam com dinheiro grande, ora negociam a
Selic a uns 13,5% no final do ano. Juros reais além de 6% até 2029.
Essas diferenças de taxas e preços não vão
mudar a história da economia do país. Não mudam nem a perspectiva de médio
prazo (para lá de uns dois anos). Mas vão prejudicar a retomada de um
crescimento medíocre melhorzinho, aumentar ainda mais a dívida pública e manter
mais pessoas e empresas com
a corda dos juros no pescoço.
A taxa de câmbio ("preço do dólar") pode até
ajudar. Mas não tanto quanto em 2025. De resto, previsões de câmbio no curto
prazo são muito furadas, até porque o valor das moedas depende de decisões dos
donos do dinheiro grande do mundo, inescrutáveis.
Nesta quarta (29), afora surpresa enorme, o BC deve diminuir
a Selic de 14,75% para 14,5%. No ano, restarão mais cinco reuniões de definição
da taxa básica. Para se chegar a 13%, como está na previsão dos economistas do
Focus, seriam necessários quatro cortes de 0,25 ponto percentual mais um de 0,5
ponto percentual, pois. Difícil.
O BC teria de ignorar os prováveis efeitos da eleição
brasileira no dólar ou outros solavancos financeiros. No mínimo, teria de
contar com a sorte de que os efeitos da guerra sobre preços não se tornem ainda
piores.
Teria de esperar que a alta de combustíveis não se espalhe
para outros preços e que outros aumentos de custos provocados pela guerra não
sejam lá graves (petroquímicos, fertilizantes, etc.).
Teria de contar ao menos com o prosseguimento da
desaceleração gradual da atividade econômica, de agora em diante com impacto
mais decisivo na inflação de
serviços.
Teria de esperar que, com esse cenário não tão ruim, as
expectativas de inflação parassem de inchar, pelo menos. Ou, então, considerar
que o inchaço das expectativas seja um calombo temporário —ou ignorá-lo,
tentando dar explicação razoável para tal atitude. Claro, se a atividade
econômica no Brasil passasse a cair pelas tabelas, rápido, a coisa mudaria de
figura. Mas é o caso de "só é bom se for ruim".
Antes da guerra, previa-se que o IPCA terminaria o ano em
3,91%; agora, em 4,86%. Para 2027, previam-se 3,79%; agora, 4%. Para 2028,
preveem-se 3,61%. Daqui a uns dois meses, 2028 será o ano relevante para o BC,
aquele momento em que, teoricamente, a política monetária (de juros) estaria
fazendo mais efeito. A meta do BC é de IPCA em 3%.
Em uma perspectiva racional, Donald Trump teria
de se livrar desta guerra logo. Entendidos em Casa Branca dizem que gostaria de
solução antes de se encontrar com Xi Jinping na China, em meados de maio. Para
que assim seja, terá de aceitar termos do Irã: derrota.
Difícil.
Analistas de muitos bancões esperam "normalização"
do tráfego por Hormuz a partir de maio. Estão otimistas, como parece ser o caso
dos mercados financeiros americanos (basta olhar preços e taxas por lá). Ainda
assim, a situação do petróleo ficaria apertada até setembro, por aí.

Nenhum comentário:
Postar um comentário