quinta-feira, 23 de abril de 2026

MORRE LÚCIO BRASILEIRO

Penélope Menezes, Thays Maria Salles, O POVO

Morre Lúcio Brasileiro, do O POVO, jornalista diário mais antigo do mundo

O colunista social do O POVO havia celebrado recentemente seu Jubileu de Platina, marcando sete décadas de produção ininterrupta

O jornalista Lúcio Brasileiro, colunista social do O POVO, morreu na noite desta quinta-feira, 23, aos 87 anos, após complicações de uma queda. Em 2025, alcançou 70 anos de carreira jornalística, sendo reconhecido como o jornalista diário mais antigo do mundo.

O profissional mantinha coluna diária no O POVO e um programa na Rádio O POVO CBN. Ele estava hospitalizado em Lisboa, Portugal, desde o sábado, 11, durante roteiro de viagem que incluiria passagens por Nice (França) e Barcelona (Espanha), rumo a Ibiza. Não há informações relacionadas ao enterro. 

Nascido no dia 6 de abril de 1939 em Aurora, no Cariri cearense, iniciou sua carreira aos 16 anos, no jornal Gazeta de Notícias. Antes de se estabelecer como colunista, colaborou com O POVO e O Estado em textos voltados ao futebol. 

Em 1968, depois de colaboração com o caderno de Esporte, passou a publicar uma coluna diária no O POVO. Em 2005, completou o seu Jubileu de Ouro, com 50 anos de produção. 

Personalidades e amigos lamentam morte de Lúcio Brasileiro

Para Luciana Dummar, presidente institucional do O POVO, Lúcio é o "símbolo de uma geração, testemunha das grandes mudanças que a sociedade cearense passou".

"Viveu períodos intensos, com a Fame, recolheu-se no Cumbuco, celebrou a vida em Ibiza. Criou um personagem particularíssimo em torno de si próprio, tendo sido ao mesmo tempo Francisco Newton, Lúcio e Paco. O POVO se despede dele com carinho e respeito", homenageia.

Diretor de Jornalismo da Rádio O POVO/CBN e CBN Cariri, o colunista Jocélio Leal definiu Lúcio como "profissão esperança, de recados curto e doce sob os auspícios de seus amigos, que eram tantos". Segundo ele, Lúcio era muitos.

"Era educar gente de poucas telas na parede. Era tirar onda direto do Cumbuco com suas hilárias pílulas de um minuto pela rádio O POVO CBN. Era o carinho com o Anuário do Ceará como seu anfitrião maior e de coração. Era o trafegar de sua coluna por faunas e salões em extinção e ainda assim sendo menino. Lúcio deixa o lamento de termos dividido suas gargalhadas menos do que a gente queria".

O governador Elmano de Freitas (PT) lamentou a morte do jornalista e colunista. “Lúcio Brasileiro foi um dos maiores nomes do jornalismo cearense e brasileiro. Um ícone da profissão, que em 70 anos de carreira uniu informação e opinião com ética e credibilidade. Com sua coluna diária, que bateu recorde de tempo no ar, retratou durante décadas as principais notícias da sociedade cearense". 

Lúcio foi homenageado, em 2012, com a Medalha da Abolição, a principal comenda entregue pelo Governo do Ceará. O chefe do Executivo estadual também ressaltou seu agradecimento ao "grande cearense" pelos serviços prestados ao jornalismo do Estado.

O prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), também compartilhou nota de pesar. "Lúcio marcou seu nome na imprensa cearense, sobretudo no colunismo social, onde detinha o recorde de colunista há mais tempo na ativa em todo o mundo, através das páginas do jornal O POVO", disse.

"Era um dos grandes conhecedores da história do nosso futebol, em especial da seleção brasileira e das Copa do Mundo. Deixo meu sincero abraço à legião de amigos e admiradores de Lúcio", completou.

Assessor de Lúcio Brasileiro por 49 anos, Franzé de Lima relembra o talento para narrar histórias do jornalista, além de sua gargalhada contagiante e um profundo respeito pelos amigos.

"Foram 70 anos de jornal, 70 anos de coluna diária. E nunca o Lúcio foi capaz de ofender qualquer ser humano. Ele jamais botou alguém para baixo, através da coluna ou mesmo fora dela, como pessoa", afirmou.

"O momento é difícil, pois estamos todos de luto com a partida dele. Uma cabeça brilhante, uma memória fantástica", destacou.

A presidente do Instituto Sérvulo Esmeraldo, Dodora Guimarães, comentou em publicação na rede social do O POVO sobre a partida do jornalista. "A sociedade fortalezense perde o seu biógrafo e o colunismo social, o seu atacante mais longevo e brilhante. Brasileiro, você fez uma era!".

Jornalistas relembram trajetória de Lúcio Brasileiro

Lúcio tornou-se referência para gerações de colunistas. Antes, foi repórter, como lembra o editor-adjunto do Núcleo de Audiovisual do O POVO e cronista, Demitri Túlio

"Há jornalistas que também são personagens do jornalismo. Lúcio Brasileiro foi primeiro repórter e, depois, personagem dele mesmo. Escolheu um modo próprio de narrar sobre o que achava que era o seu derredor. Foi um cronista, de modo bem particular, da política, do esporte e da vida dos privilegiados da sociedade cearense. Gostava de ouvi-lo e lê-lo sobre uma das faces de Fortaleza”. 

Poeta e escritora, a jornalista Lêda Maria diz que Lúcio deixa para seus companheiros de imprensa um legado de dedicação ao trabalho, elegendo a seriedade e a precisão de informar bem. "Era criativo e tinha a paz como caminho. Era harmonioso nas conversas. Fiel às suas fontes noticiosas, e cativante".

"Na conjugação de qualidades humanas e éticas, sabia oferecer aos seus amigos a solidariedade como bem maior. Passava distante da infelicidade, elegendo o bom papo, as histórias e as boas gargalhadas", relembra a colunista do O POVO.

Editor de cultura e entretenimento do O POVO, o colunista Clóvis Holanda lembra que o "eterno Paco" tinha uma maneira única de ver a vida e seus habitantes e que ficará na lembrança com "seu sorrisão aberto no rosto após contar mais uma de suas ótimas".

"Jogava com as palavras, virando e revirando as frases, em seu estilo próprio de escrita, da mesma forma com que tratava seus dias, deixando que o inesperado o encantasse em qualquer esquina, do Cumbuco ou do mundo. De poucas palavras, tirava profundas reflexões, puxões de orelha, dicas infalíveis. Será para sempre um capítulo fundamental na história da Imprensa Cearense, assim como deixa um vácuo como guardião das memórias do tempo".

Arlen Medina Néri, ex-diretor-geral de Jornalismo do O POVO, conhecia Lúcio há mais de 30 anos. Para ele, o colunista "não morre pois deixa memória eterna em cada um de nós".

"Lúcio era partilha. Adorava receber, convidar e contar suas histórias (inúmeras) a todos. Na Redação do O POVO, ele rompia barreiras e sabia cativar e conviver com diferentes gerações. Penso que não estamos de luto! Estamos agradecidos por sua convivência e pelo que muito ainda vai nos contar".

Henrique Araújo, colunista do O POVO e apresentador do programa Debates do O POVO da Rádio O POVO CBN, conta que Lúcio foi sempre uma personagem sobre quem teve curiosidade pelo tipo de colunismo social que fazia.

"Os cacoetes, as frases, as observações sobre o mundanismo da elite cearense, tão provinciana e deslumbrada nas suas crônicas. A seu modo, era ótimo contador de causos de uma Fortaleza que tentou viver o sonho dourado do cosmopolitismo, mas que sofria de uma falta de criatividade quase patológica, à mercê desse referencial estrangeiro. Reclamava frequentemente que faltava arte na vida dos ricos. Entre nós, era como se o dinheiro nunca produzisse um lastro cultural. E o Lúcio soube captar esse traço da sociabilidade local. Tinha um olhar atento para isso, mesmo enfronhado nesse universo".

Para o jornalista Wilton Bezerra Jr., Lúcio Brasileiro foi uma de suas "referências civilizatórias"; ele lamentou a notícia. "Era leitor quase assíduo da sua coluna e trajetória. Lúcio inseriu a gente cearense numa questão civilizatória. Um estado de espírito, mas sobretudo uma postura de encantamento perante a existência, transmitida aos seus contemporâneos".

Lúcio Brasileiro recebeu Medalha da Abolição, maior honraria do Estado, em 2012

O jornalista foi homenageado em 2012 com a mais alta comenda do Estado, entregue anualmente em 25 de março (Data Magna do Ceará): a Medalha da Abolição. A honraria busca celebrar as personalidades que fizeram contribuições relevantes ao Ceará.

A cerimônia de entrega, que também concedeu a medalha ao desembargador Ernani Barreira, teve a presença do então governador Cid Gomes.

“É extremamente gratificante, para mim, colocar a Medalha da Abolição no peito do jornalista Lúcio Brasileiro e do desembargador Ernani Barreira, pessoas que aprendi a admirar, cada um em seu campo de atuação profissional”, comentou o político.

Para Lúcio, o momento foi acolhido com “total importância”.  “Recebo-a com muita humildade. Ela é um reconhecimento ao trabalho, que pelo menos fez alegrar muito o povo cearense”.

A outorga para os dois cearenses homenageados foi publicada no Diário Oficial do dia 14 de março de 2012 (decreto nº 30.847 de 12 de março de 2012).

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