Na convicção de que são os salvadores da pátria, já
existe nos bastidores do STF a ideia de aumentar de 75 para 80 anos a idade da
aposentadoria compulsória.
Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) continuam se
sentindo os sustentáculos da democracia brasileira, por causa disso consideram
que criticar a instituição é trabalhar contra o regime. Houve época em que isso
foi verdade, especialmente no governo Bolsonaro, que, constatou-se
posteriormente, queria enfraquecer o Supremo para dar um golpe de Estado.
Certamente por essa circunstância especial, em que a mais alta Corte do país
lutava para neutralizar o golpe, algumas interpretações heterodoxas dos ministros
foram incorporadas ao nosso sistema jurídico e aceitas pela sociedade.
Encerrado o episódio desastroso de nossa
História, alguns ministros permaneceram agindo além dos limites legais, em
defesa até de interesses pessoais. Episódio menor como a agressão ao ministro
Alexandre de Moraes e a sua família num aeroporto estrangeiro foi transformado
em caso de segurança nacional. Outros, mais graves, fizeram com que o ministro
Dias Toffoli, viu-se depois em defesa própria, avocasse para si todo o processo
do Banco Master, com sigilo máximo, e passasse a obstruir as investigações. O
escândalo foi tamanho que ele acabou retirado da relatoria do caso, apesar de o
espírito de confraria ter justificado a saída como decisão dele, e não do
colegiado.
Em dezembro de 2025, o ministro Gilmar Mendes suspendeu
monocraticamente trechos da Lei do Impeachment (Lei 1.079/1950), restringindo à
Procuradoria-Geral da República (PGR) o direito de denunciar ministros da Corte
e retirando essa prerrogativa de cidadãos. A medida, vista por críticos como
“blindagem”, exigia quórum maior no Senado para impeachment, sob alegação de
proteger a independência judicial de pressões políticas. Gilmar acabou
desistindo da proposta.
Em mais uma ação autoprotetiva, Moraes desencavou uma
proposta do Partido dos Trabalhadores de tentar reduzir o alcance das delações
premiadas, parada desde julho do ano passado, liberando o caso para ser
incluído na pauta de julgamento do plenário físico do STF. O PT afirma que a
ação visa a “evitar delações que ofendem as garantias fundamentais
individuais”. Com as revelações diárias que implicam Moraes, Toffoli e, em
menor grau até agora, o ministro Nunes Marques, os ministros passaram a adotar
medidas de autodefesa que só fazem desacreditar a instituição.
Eles agora advertem interlocutores de que as críticas ao
Supremo podem favorecer a extrema direita, disposta, caso vença a eleição
presidencial, a intervir, incentivando o impeachment de alguns de seus membros
ou aumentando o número de ministros para conseguir maioria no plenário. Não
passa na cabeça de muitos deles que a melhor solução seria a autocontenção,
como defende o presidente Edson Fachin, cortando na carne quando for o caso.
O aumento no número de integrantes das Cortes Superiores é
prática de governos autocráticos para controlar as decisões da Justiça. O
húngaro Viktor Orbán foi mestre nesse artifício a partir de 2010, quando
aumentou o número de juízes do Tribunal Constitucional e alterou regras de
nomeação. Foi derrotado nas urnas depois de 16 anos de governo autoritário.
Noutros países, como Polônia, Turquia, Venezuela, Argentina, Nicarágua ou
Israel, governos de direita ou de esquerda usaram o método para controlar as Supremas
Cortes.
O caso emblemático aconteceu nos Estados Unidos. O
presidente Franklin D. Roosevelt ameaçou aumentar o número de integrantes da
Suprema Corte em 1937, episódio conhecido pejorativamente como court-packing
plan (plano de empacotamento da Corte), porque, dominado por juízes
conservadores, o tribunal se colocou contra o programa de Roosevelt para
combater a Grande Depressão, o New Deal. Não conseguiu aprovação do Congresso.
Na convicção de que são os salvadores da pátria, já existe nos bastidores do
STF a ideia de aumentar de 75 para 80 anos a idade da aposentadoria
compulsória. Seria “o bengalão”.

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