Prisão de Ramagem é fruto da cooperação internacional
entre os países, com atuação de um brasileiro junto ao ICE na busca por
foragidos
Um delegado brasileiro trabalha dentro do ICE à procura de
foragidos da Justiça entre imigrantes ilegais. Foi assim que o serviço de
imigração e alfândega dos EUA soube de Alexandre
Ramagem e o Brasil foi informado de sua prisão ontem. Por isso, o caso
está sendo entendido pelas autoridades brasileiras como de deportação, e não de
extradição. O próximo passo é que o ex-diretor da Abin seja levado a um juiz,
que pode soltá-lo mediante pagamento de fiança ou decidir pela deportação.
Além do delegado, que é o “oficial de
ligação”com o ICE, há outros oficiais brasileiros trabalhando em órgãos
americanos, da mesma forma que há no Brasil servidores americanos. Isso além
dos adidos da Polícia Federal lotados nas embaixadas brasileiras. O delegado
brasileiro junto ao ICE busca foragidos da Justiça entre imigrantes ilegais.
Ele é uma espécie de ponte entre o Brasil e a autoridade de imigração
americana. Como me explicou uma fonte: “Nós, brasileiros, não estamos atrás de
brasileiros ilegais. Estamos atrás de brasileiros foragidos da Justiça. Se o
cara está nos Estados Unidos de maneira ilegal, é problema para ser resolvido
pelas autoridades americanas. Neste caso do Ramagem ele é um foragido”.
Se for extradição é um processo mais complexo que pode levar
mais tempo. Ramagem tem um pedido de asilo apresentado aos Estados Unidos para
ser considerado. Só que ele foi preso por uma situação irregular, estava usando
um passaporte que já fora cancelado pelas autoridades brasileiras. E o usou
recentemente para aluguel de um carro.
Tem sido uma rotina trazer, nos voos que chegam ao Brasil
com imigrantes ilegais, brasileiros com mandado de prisão. Em cada voo, são
dois ou três, e já houve caso de cinco presos em um mesmo avião.
Houve uma dúvida ontem sobre se a prisão de Ramagem havia
sido ou não resultado da cooperação internacional entre o Brasil e os Estados
Unidos, ou fora um acaso a partir de uma infração de trânsito. O que a Polícia
Federal sustenta é que foi fruto da cooperação internacional. E parceria
através desse oficial de ligação com o ICE. Foi o delegado que recebeu a
informação da prisão de Ramagem e informou ao Brasil. Isso mostra que a
despeito de quaisquer diferenças entre os governos dos dois países há articulação
que continua acontecendo naturalmente entre vários de seus órgãos públicos.
O caso de Ramagem é exemplar por vários motivos. Ele fugiu
antes da sentença, mas o fez saindo por Roraima, onde sua mulher é procuradora
do Estado, e com a ajuda do filho de um garimpeiro. Isso torna tudo mais grave,
porque é um flagrante de promiscuidade ligando uma ex-autoridade do governo
Bolsonaro com o garimpo.
A Procuradoria-Geral do Estado de Roraima enviou nota
informando que “a procuradora Rebeca Teixeira Ramagem encontra-se em período
regular de férias até o dia 8 de maio”. Ramagem fugiu em setembro de 2025. A
procuradora chegou em novembro com as filhas. Segundo a nota da procuradoria de
Roraima, há um período de ausência da procuradora que está “pendente de
julgamento pelo Tribunal de Justiça de Roraima”, o de “7 de janeiro a 20 de
fevereiro de 2026”. Nesse período, ela pediu licença médica e queria que a perícia
fosse virtual. A procuradora entrou com um mandado de segurança no TJ, pedindo
essa perícia remota, mas foi indeferido.
Ramagem foi condenado, com sentença transitada em julgado,
por fazer parte da tentativa de golpe de Estado de Jair
Bolsonaro. Integrava o núcleo crucial, em que está o próprio Bolsonaro, os
generais e o almirante que fizeram parte da conspiração. Entre as várias
acusações contra ele está o fato de que montou uma Abin paralela contra as
pessoas que o governo anterior considerava inimigas.
A prisão de Ramagem relembra o que aconteceu no governo
Bolsonaro. Há quem esteja esquecendo ou tendo amnésia proposital nesse período
de eleições. Aqui, no mandato de Jair Bolsonaro, houve uso da máquina para
espionar adversários políticos. E isso fazia parte do plano de golpe de Estado
que levou o ex-presidente e lideranças militares para a prisão. Ramagem,
ex-segurança de Bolsonaro que virou diretor-geral da Abin, fugiu para os
Estados Unidos. Preso ontem em Orlando ele aguarda seu destino, que pode ser a
deportação para o Brasil.

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