Estamos perdidos em guerras tribais enquanto o futuro se
constrói
Foi uma semana atribulada no Vale do Silício. Começou com a
Anthropic soltando para a concorrência, e não para o público, seu novo modelo
de inteligência artificial. Terminou na madrugada de domingo, quando um jovem
casal disparou tiros contra a casa do CEO da OpenAI, Sam Altman. Foi o segundo
ataque à casa. Na sexta-feira, também de madrugada, um coquetel molotov havia
sido atirado contra o muro da entrada.
Altman vive com o marido e o filho, um bebê
de 1 ano, em Russian Hill, bairro de classe média alta em San Francisco onde
algumas casas, em geral mais antigas, são bem luxuosas. É o caso da residência
do CEO, que não tem fachada na rua, como é mais comum na cidade. A construção é
um pouco mais afastada. No fim de semana, ele publicou em seu blog um texto
longo sobre o primeiro ataque. De cara, pôs a foto do marido com o filho. Era
para lembrar que ele não é uma entidade, e sim uma pessoa, com família. Seguiu
explicando que compreende perfeitamente que este é um momento em que a
ansiedade a respeito de IA começa a crescer.
O motivo que levou a Anthropic a divulgar a nova versão do
Claude para a concorrência tem tudo a ver com isso. Segundo a equipe da
companhia, ao testar melhor o modelo, os engenheiros descobriram que ele é tão
bom em escrever códigos e compreender programas que saiu achando fragilidades
em toda sorte de software. Portas escancaradas para ataques de hackers. Acharam
melhor abrir o sistema para Google, Microsoft, Apple, Fundação Linux e diversos
outros grandes negócios da tecnologia. O objetivo é dar um tempo para que todos
mapeiem onde seus sistemas são vulneráveis e consertem os problemas, antes de o
Claude Mythos ir ao ar.
O gesto da Anthropic é também boa propaganda. Não é a
primeira vez que Dario Amodei, CEO da empresa, apronta. Quando ainda estava na
OpenAI e comandou o projeto do GPT 2.0, alegou a mesma coisa. Modelo
inteligente demais, perigoso para se tornar público. Não, não era. O GPT 5 está
no ar faz um ano e não quebrou nada por enquanto. Mas o Claude atual, versão
4.6, é o modelo mais formidável em circulação, se tornou o favorito de
programadores, e é inteiramente plausível que a nova edição seja mesmo um ás em
descobrir problemas nos sistemas existentes.
Existe outra tese circulando no Vale: a Anthropic roubou
muitos clientes da OpenAI e do ChatGPT, nos últimos três meses. E sentiu o
peso. Quem usa muito o Claude percebe que há horas do dia em que ele fica mais
lento, não aguenta o tranco. Para no meio, interrompe um processo sem terminar.
Isso quer dizer que, mesmo Mythos já estando pronto, talvez a companhia precise
antes expandir seus data centers para oferecê-lo aos clientes. Todas as versões
podem ser verdade ao mesmo tempo. A Anthropic não tem estrutura para liberar o
novo modelo, ele descobriu vulnerabilidades reais em sistemas e é propaganda
das suas qualidades.
É nesse momento que empresas começam concretamente a
perceber o que ganham com IA. Está muito mais fácil escrever programas. Muitas
das plataformas de que companhias dependem para gerenciar estoque, folha de
pagamentos e fornecedores poderão ser escritas dentro de casa por equipes
pequenas. Nos departamentos jurídicos, também lá a IA começa a entrar,
redigindo e relendo contratos. O que ainda não era nítido em termos de
transformação começa a ser. E a ansiedade aparece.
Na edição da semana passada da New Yorker, a principal
reportagem foi sobre Altman. O repórter Ronan Farrow, famoso por denunciar o
magnata de Hollywood Harvey Weinstein, passou 18 meses na cola do executivo.
Descobriu que ele enganou profissionais que contratava e ocultou informação do
Conselho da OpenAI. Altman tem um perfil que escolhe seletivamente o que dizer
a quem, de acordo com seus objetivos.
Na postagem que publicou, ele não negou nada. Seu tom foi de
que “não é um homem perfeito”, “não se orgulha de tudo o que fez”. E fez um
aceno: ele é uma das pessoas no comando da maior revolução tecnológica de nossa
vida. Não é missão trivial. As conversas sobre IA, e que IA queremos, e como
ela se apresentará na sociedade, precisam acontecer. Democraticamente. Ele não
é contra esse debate. Pede que o debate aconteça. Como, aliás, Dario Amodei
também pede. São rivais, não se dão, há um mês se encontraram num palco na
Índia e nem sequer se cumprimentaram.
Mas ambos, sempre que podem, batem nessa tecla. As coisas
começarão a acontecer rápido. E as sociedades estão com o foco desregulado.
Estamos perdidos em guerras tribais enquanto o futuro se constrói sem que
prestemos atenção.

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