Mensagens obtidas na Operação Carbono Oculto revelam que
Ciro Nogueira manteve um grupo de WhatsApp com investigados na máfia dos
combustíveis
Um desdobramento da Operação Carbono Oculto, que
investiga um esquema de fraudes bilionárias no setor de combustíveis, encontrou
mensagens trocadas entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e acusados de
participação na fraude. O material foi obtido por meio da quebra do sigilo
telemático (de dados de celulares, computadores e arquivos em nuvem) de Haran
Santhiago Girão Sampaio e Danillo Coelho de Sousa, empresários de Teresina que
na semana passada foram denunciados à Justiça sob acusação de adulterar combustíveis,
fraudar vendas, ocultar patrimônio e lavar dinheiro em associação com Roberto
Leme, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo.
Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro,
não é investigado no inquérito. Mas a Carbono Oculto 86 (o número faz
referência ao DDD de Teresina) identificou um grupo de WhatsApp do qual o
senador participou, intitulado Ciro Vitor Haran Danilo. Era uma
referência ao nome dos integrantes: além do próprio Ciro e da dupla de
empresários Haran e Danillo, estava lá Victor Linhares de Paiva, tratado
informalmente como Vitinho. Ele é uma figura próxima de Ciro. Foi seu assessor
no Senado, exerceu mandato de vereador em Teresina pelo PP e também está na
lista de denunciados pelo Ministério Público do Piauí, acusado de lavar
dinheiro para o esquema.
Os participantes do grupo conversavam por meio de mensagens
temporárias, que expiravam depois de 24 horas. No entanto, como Haran fez
capturas de tela de alguns diálogos, a polícia conseguiu acessar parte do que
foi falado. As informações constam num relatório ao qual a piauí teve
acesso. Numa das mensagens, Ciro – a quem os demais participantes se referiam
como Sena, presumivelmente uma abreviação de senador – convidou os três colegas
para “tomar um café” em sua casa, em Teresina. A mensagem foi enviada no dia 20
de novembro de 2023, e o convite era para o dia seguinte, dia 21. Na época,
Haran e Danillo, donos da rede de postos de combustível HD, negociavam a venda
de parte da empresa para Beto Louco e Primo, donos da distribuidora Copape. Em
11 de dezembro, Haran escreveu no grupo: “Está no ponto lá/ Só depende do ok
dele/ Dando o ok já inicia amanhã.” Ao que Ciro respondeu “Ok”. Dali a poucos
dias, ainda em dezembro de 2023, o negócio foi fechado.
O quarteto continuou conversando nas semanas seguintes,
segundo os prints obtidos pela polícia. No dia 4 de janeiro, Ciro escreveu no
grupo: “Querem passar aqui no hotel pra gente atualizar as coisas?” Haran
respondeu: “Ok, estamos indo.” Dali a pouco, Vitinho disse: “Estamos aqui.”
Ciro pediu então “5 min”. A conversa dá a entender que os três se encontraram
naquela tarde.
Se o encontro realmente aconteceu, não foi o único. O site
ICL Notícias já tinha publicado que,
em fevereiro, Ciro se encontrou com Hiran e Danillo no Aeroporto de Brasília. A
reportagem mostra uma foto em que os três aparecem conversando (a piauí também
obteve, posteriormente, a imagem original) e informa que eles embarcaram juntos
para Teresina. O ICL também revelou a
existência de um relatório do Coaf – o Conselho de Controle de Atividades
Financeiras – apontando que uma empresa do senador, a Ciro Nogueira
Agropecuária e Imóveis, recebeu 63,9 mil reais da Pima Energia Amizade em 2025.
A Pima foi criada por Beto Louco e Primo justamente para administrar os postos
de combustível que compraram de Haran e Danillo, no Piauí. Além disso, segundo
o Coaf, a empresa de Ciro transferiu 25,1 mil reais para a HD Petróleo Uruguai
Ltda, um dos postos de combustível de Haran e Danillo.
Segundo o Coaf, os pagamentos feitos à empresa de Ciro
ocorreram sem “aparente justificativa, vínculo ou compatibilidade da atividade
econômica”. Parte do dinheiro foi movimentada por meio da BK Instituição de
Pagamento, conhecida como BK Bank, fintech apontada como peça central no
esquema de lavagem de dinheiro investigado pela Operação Carbono Oculto em São
Paulo (uma das hipóteses ainda sob investigação é que o esquema lavava dinheiro
do PCC, mas a informação não foi confirmada até aqui pelo Ministério Público).
As mensagens obtidas pela polícia indicam que, embora
participassem do grupo de WhatsApp, Haran e Danillo pareciam não ter uma
relação próxima com Ciro. Frequentemente, quando falavam a sós, os dois se
referiam a Vitinho como um intermediário por meio do qual chegavam ao senador.
O ex-assessor e braço direito de Ciro é descrito na denúncia do Ministério
Público como lobista e intermediador financeiro da venda de parte da rede de
postos HD para Beto Louco e Primo. Segundo a investigação, recebeu 230 mil reais
de Haran em 20 de dezembro de 2023, mesma época em que aconteciam as conversas
no grupo. O dinheiro foi depositado em uma conta aberta por ele na BK Bank
havia pouco tempo. Segundo os procuradores, o pagamento foi uma
“contraprestação pelos serviços de intermediação que viabilizaram a conexão
entre os núcleos criminosos”.
A Carbono Oculto 86 também obteve áudios atribuídos a
Danillo e enviados a Haran. Em um deles, o empresário faz menções a “Beto” e
“Ciro” numa conversa sobre a venda da rede HD. “Eu acho que é esse Beto,
entendeu? Que é o pica lá, pelo que eu já sondei, né? Que é o amigo do Ciro”,
disse Danillo, segundo a gravação colhida pela polícia. Depois continua: “Aí tu
imagina o Ciro dando uma ligadinha pra ele hoje, né? Falando que a gente se
conheceu lá, aí falando bem da gente, né? Aí, meu patrão, aí a gente já chega
lá com as portas abertas.” Em seguida, no mesmo áudio, o empresário se dirige a
Vitinho, que parece estar ao seu lado: “Vitinho, pede pro Sena fazer essa
ligação aí.”
A aproximação de Beto Louco e Primo com a dupla do Piauí
aconteceu em um momento em que os donos da Copape e da Aster, principais alvos
da Carbono Oculto, buscavam se fortalecer politicamente em meio a uma disputa
de mercado com o empresário Ricardo Magro, dono da Refit. Versátil, Ciro
manteve um pé em cada canoa: ao mesmo tempo que conversava com Haran e Danillo,
cultivou uma relação próxima com Magro, rival de Beto Louco e Primo. Mas os
empresários do Piauí pareciam esperar a ajuda do senador para destravar a venda
da rede HD. Em um outro áudio obtido pela polícia, Danillo disse para o sócio:
“Rapaz, eu conversei muito com o Vitinho […] e ele disse: vamos botar o negócio
pra frente que o Ciro já falou que vai ajudar a gente.”
A piauí entrou em contato com Ciro Nogueira
para pedir esclarecimentos sobre sua relação com Haran e Danillo, as transações
financeiras detectadas pelo Coaf e as conversas no grupo de WhatsApp. Perguntou
também se ele intermediou a negociação da Rede HD com Beto Louco e Mohamad. O
senador não respondeu às perguntas da reportagem, enviadas por WhatsApp. Sua
assessoria de imprensa repassou apenas uma nota em que diz: “O senador Ciro
Nogueira não é investigado no âmbito da operação mencionada e em nenhum outro
inquérito em curso. Toda e qualquer tentativa de envolver o nome dele em
escândalos acabará por ser frustrada, uma vez que o senador não tem
envolvimento com ações ilícitas.”
A piauí não conseguiu localizar Haran e Danillo. O advogado Jader Madeira Portela Veloso, que representa os dois, disse que não poderia comentar o caso porque “o inquérito policial referente à Operação Carbono Oculto tramita em sigilo”. Vitinho, por sua vez, não atendeu às ligações nem respondeu às perguntas da reportagem, mas enviou uma mensagem dizendo: “O inquérito policial tramita em segredo de justiça. Qualquer divulgação indevida pode acarretar penalidades. Sugiro consultar a assessoria jurídica do portal para mais informações.” Roberto Leme, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, estão foragidos desde a deflagração da Carbono Oculto em agosto de 2025. A piauí não conseguiu contatá-los, e seus advogados não responderam as mensagens até a publicação desta reportagem.
Além de Ciro Nogueira, outro parlamentar é citado no
material apreendido pela Carbono Oculto 86: Júlio Arcoverde (PP-PI), deputado
federal em primeiro mandato. Aliado de Ciro, em 2024 ele foi alçado ao cargo de
presidente da Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização do
Congresso.
A polícia obteve um áudio que diz assim: “Opa, deputado
Júlio, tudo bom? É o Haran aqui. Quando você puder me dá uma ligada.” Não é
possível cravar que o deputado em questão seja Júlio Arcoverde, e não outro
Júlio. Mas, numa outra conversa, essa por mensagem de texto, um dos sócios
tenta marcar um encontro com um interlocutor identificado como “Deputado Julio
Arc”. Além disso, um relatório do Coaf detectou um repasse de 9,5 mil reais
feito pelo CNPJ “Eleição 2022 Júlio Ferraz Arcoverde Deputado Federal” para a
empresa HD Petróleo, pertencente aos dois empresários. Segundo o G1,
o Coaf descobriu ainda um fato curioso: que, em 2024, Júlio Arcoverde e o
deputado Átila Lira Filho (PP-PI) pagaram despesas de Ciro Nogueira no valor
total de 17 mil reais.
Em áudios enviados a Haran, Danillo mencionou “o deputado
Júlio” ao falar sobre a negociação de emendas parlamentares. Em um deles, ao
tratar de recursos destinados a Caxias, no Maranhão, o empresário disse: “O
problema foi porque o prefeito cobrou os 130. Mesmo a gente já tendo pago para
o Júlio, ele cobrou os 130 de novo. Aí a gente teve que dar para aquele fela da
puta, aquele prefeito. Aí o Júlio tinha que devolver os 130. Aí ele não
devolveu.” Não fica claro, a partir da conversa, o que são os “130” a que ele
se refere. Em uma outra mensagem de voz, o empresário dá a entender que não
faria mais acertos com o tal Júlio. “Esse negócio que a gente fez de
compromisso com o Júlio aí acabou. Não tem mais. […] Pode ser uma emenda de 1
trilhão. Não pago nada mais. Não faço mais nenhum compromisso daqui pra frente.
Zero.”
O deputado Júlio Arcoverde, assim como Ciro Nogueira, não é
investigado na Operação Carbono Oculto. Caso um dos dois venha a ser, o caso
terá de ser remetido ao Supremo Tribunal Federal, já que ambos têm direito a
foro privilegiado.
Procurado pela piauí, Júlio Arcoverde enviou uma
nota em que diz desconhecer “quaisquer menções relacionadas ao seu nome no
contexto citado e reforça que não é investigado no âmbito da operação
mencionada. O parlamentar reitera que não possui qualquer envolvimento com
ações ilícitas”. O deputado Átila Lira Filho, por sua vez, afirmou não
conhecer Haran e Danillo, a não ser de “relação social”, e que as despesas que
pagou a Ciro, de 3 mil reais, dizem respeito a um medicamento que o senador
providenciou para ele. “Foi um remédio que o Ciro comprou para mim, para
emagrecimento”, disse o deputado, em uma mensagem de áudio enviada à piauí.
“Foi o Mounjaro. Foram uns 3 mil e 400 e poucos (reais)”, continuou. “O meu foi
uma caneta só.”

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