Os canais do governo com o comando do Congresso se
mostram obstruídos. É como se o Executivo fosse um mero espectador da agenda do
país
Lula chega à sua sétima disputa presidencial isolado como
nunca e demonstra mais dificuldade que em ocasiões passadas de reverter uma
maré negativa. As trocas nos ministérios esvaziaram a já precária articulação
política de seu terceiro mandato, ele está cercado de políticos e assessores
com visão de esquerda e não tem diálogo fluente nem com o Congresso, nem com os
setores da economia que mais se envolvem nas conversas preparatórias para as
eleições.
Nesse ambiente marcado pela anemia política
do incumbente, acumulam-se riscos de derrotas parlamentares, a discussão de
medidas emergenciais em ritmo diário demonstra a preocupação que tomou conta do
Palácio do Planalto e, para culminar, começam a fermentar teorias que, se
ganharem tração, são altamente perniciosas para Lula, como aquela segundo a
qual ele poderia desistir de disputar um novo mandato.
Em conversas nesta semana de aliados históricos de Lula com
expoentes do mercado financeiro, do agronegócio e de outros setores, já havia
quem não considerasse absurda a hipótese de “bidenização”, sua substituição por
outro nome.
A colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, abordou
conversas de bastidores que trazem o nome de Fernando Haddad como possível
substituto de Lula na chapa presidencial. Quando questionado, Haddad tem sido
peremptório em negar a possibilidade e retruca que o candidato é Lula.
Mas o simples fato de esse assunto começar a ser tratado em
voz alta, ainda que reservadamente, por políticos, empresários e especialistas
de marketing, entre outros atores, já é uma pista eloquente das dificuldades
inéditas enfrentadas por Lula.
Sim, trata-se de alguém que já demonstrou ter sete vidas na
política, ao vencer em 2006, depois do mensalão e do escândalo dos aloprados, e
em 2022, depois de ter sido condenado e preso na Lava-Jato. Mas, para onde quer
que se olhe, há adversidades no caminho para o quarto mandato. Nas pesquisas,
nenhuma área do governo aparece bem avaliada. Diante disso, qualquer campanha
publicitária esbarra, de saída, no muro de má vontade erigido pelo eleitor.
A defesa da democracia, um dos pilares sobre os quais Lula
estruturou a atual passagem pela Presidência, também vai se mostrando mais
limitada como catalisador eleitoral, uma vez que a rejeição a sua permanência
no poder supera a demonstrada diante da possibilidade de volta do bolsonarismo.
Para que esses dados mudassem, Lula precisaria sensibilizar
segmentos com que não tem hoje nenhuma interlocução, como empresários,
profissionais liberais, representantes do agronegócio, pequenos empreendedores,
evangélicos e tantos outros convencidos de que sua vida econômica piorou e de
que o PT já deu o que tinha que dar.
Mesmo nas prioridades que elencou nos últimos meses para
tentar reagir, não há senso de urgência da parte de quem ficou ao lado de Lula
depois das desincompatibilizações. Basta ver a novela da escala 6x1: há quantos
meses o governo anuncia que mandará um Projeto de Lei à Câmara, sem tomar a
iniciativa?
O Planalto vai a reboque do noticiário, em vez de ter o
protagonismo da agenda política. A iminência da votação, em datas consecutivas,
da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal e do veto integral de
Lula ao projeto que amenizou as penas dos golpistas embute um duplo risco de
derrota para Lula.
Nos dois casos, os canais com o comando do Congresso se
mostram obstruídos. É como se o Executivo fosse mero espectador do desfecho de
pautas que terão importância capital na campanha eleitoral.
O embrulho de última hora de medidas para tentar dar alento
a endividados e evitar a explosão do preço dos combustíveis e o lavar de mãos
tardio do caso Master terminam de compor o quadro de apatia do presidente a
menos de seis meses do pleito.

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