Na cúpula petista há quem afirme que presidente pode dar
um passo para trás se conjuntura não melhorar; maioria das lideranças, no
entanto, é veemente ao assegurar candidatura
Em outros tempos, a vida dos presidentes da República, se
não era mais fácil, parecia ter soluções mais simples para os problemas.
Enquanto nos dias de hoje a queda de braço por uma cadeira no Supremo Tribunal
Federal (STF) deflagrou uma crise institucional entre Senado e Palácio do
Planalto, no passado, o presidente Getúlio Vargas resgatou um aliado dissidente
com uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL).
Pouco antes do golpe do Estado Novo, a
influência e o poder bélico do governador do Rio Grande do Sul, Flores da
Cunha, inquietavam Getúlio. Por isso, ele se movimentou para se reconciliar com
ex-aliados gaúchos, que romperam com ele para aderir à Revolução
Constitucionalista de 1932, como João Neves da Fontoura e Batista Lusardo. O
objetivo era esvaziar o rol de aliados do desafeto. Em uma conjuntura em que o
fardão dos imortais era mais atraente, para alguns, do que a toga do STF,
Getúlio e Assis Chateaubriand atuaram para garantir a eleição de Fontoura para
a ABL em 1936.
Nos dias atuais, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva amargou quase cinco meses de espera até que o presidente do Senado, Davi
Alcolumbre (União-AP), concordasse em dar andamento à indicação do
ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para o STF.
A crise entre Senado e Planalto continua latente, mas a
percepção geral é que a temperatura baixou, viabilizando a retomada do diálogo.
Em um aceno ao governo, o presidente do Senado finalmente enviou o processo de
Messias para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde a sabatina será
realizada em 29 de abril.
Porém, nos bastidores, fontes ligadas a Alcolumbre afirmam
que a relação dele com Lula ainda não distensionou. Segundo esses
interlocutores, as declarações do presidente sobre a crise do Banco
Master na quarta-feira (8), ao ICL Notícias, não foram bem assimiladas no
entorno do senador do Amapá nem entre alguns ministros do STF.
Em um esforço de descolar sua imagem do Supremo, que foi
contaminado pela crise do Master, Lula relatou ter aconselhado o
ministro Alexandre de Moraes a se declarar impedido de julgar ações
relacionadas às fraudes atribuídas à instituição financeira, liquidada pelo
Banco Central. O líder petista citou o contrato do Master com o
escritório de advocacia de Viviane Barci, esposa do ministro, e ressaltou
que o magistrado não deveria permitir que o escândalo jogasse fora a
“biografia” dele.
Nesse cenário, Alcolumbre concordou em destravar a indicação
de Messias ao STF, mas, ao mesmo tempo, acenou para a oposição. Programou
para um dia depois da sabatina, ou seja, 30 de abril, uma sessão do Congresso
para votar o veto ao projeto de lei da dosimetria, que permitirá a redução
da pena do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a mais de 27
anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Na mesma entrevista, Lula deixou petistas e o
ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, atordoados
ao afirmar que não decidiu se será candidato à reeleição. “Vai ter uma
convenção no meio de junho e eu, para decidir ser candidato, vou ter que
apresentar um programa, uma coisa nova pra esse país”, justificou. Na
sequência, entretanto, gerou mais confusão: “Todo mundo sabe que dificilmente
eu deixarei de ser candidato”.
Nessa entrevista, Lula contrariou Sidônio, que dois dias
antes, foi a público rechaçar rumores, que estariam circulando entre políticos
do Centrão, de que o presidente desistiria da candidatura. “Esta conversa
simplesmente não existe. Lula é candidatíssimo à reeleição”, enfatizou, ao
portal Metrópoles. Sidônio deixará o cargo em junho para assumir a função de
marqueteiro da campanha.
Mesmo na cúpula petista, há quem afirme que Lula poderia,
realmente, dar um passo para trás, se a conjuntura não melhorar. O argumento é
de que ele não pode “jogar a sua biografia no lixo”, na hipótese de eventual
derrota para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) - justamente, o filho
do adversário que, em 2022, tentou impedi-lo de tomar posse. A maioria das
lideranças petistas, contudo, é veemente ao assegurar que o mandatário levará a
candidatura até o fim.
Um complicador para eventual recuo seria a falta de quadros
de fôlego para substitui-lo na urna. O ex-ministro da Fazenda Fernando
Haddad é visto como um sucessor natural, até pelo recall da campanha de
2018. Mas Lula não quer nem pensar em afastá-lo da disputa em São Paulo. A
interlocutores, o presidente já disse acreditar - mesmo na contramão das
pesquisas - que o ex-prefeito de São Paulo tem chances, em uma campanha sem
erros, de vencer o atual governador Tarcísio de
Freitas (Republicanos).
Nesse contexto, crescem as apostas sobre o ex-ministro da
Educação Camilo Santana, um dos quadros que mais se aproximou de Lula no
atual mandato. Mas o ex-ministro está na linha de frente das negociações para
impedir a vitória do ex-governador Ciro Gomes (PSDB) no Ceará, e
manter o governo estadual nas mãos do PT.
A propósito da potencial dupla de sucessores, um petista
histórico lembrou à coluna que ainda no início do governo, Lula dizia a
interlocutores identificar no ex-ministro da Educação atributos eleitorais que
faltariam ao ex-titular da Fazenda. A leitura do presidente era de que Camilo
tinha “pele de povo”, e Haddad não.

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