Superestimarem seus respectivos ganhos na guerra e Trump
não conseguir controlar Netanyahu
As negociações entre EUA e Irã têm a melhor composição
possível. O que pode dar errado? As partes superestimarem seus respectivos
ganhos táticos, militares, políticos e estratégicos na guerra de 40 dias; ou
Donald Trump não conseguir controlar Binyamin Netanyahu.
A escolha do vice J.D. Vance prova o desejo de Trump de
alcançar um acordo. Além do mandato que a eleição lhe confere, o vice foi quem
mais vocalizou oposição à guerra, no processo de decisão.
Do lado iraniano, a presença do poderoso
presidente do Parlamento, Mohammed Ghalibaf, e do chanceler Abbas Araghchi
também inspira seriedade. Ghalibaf tem enorme ascensão sobre a Guarda
Revolucionária Islâmica, para a qual o centro gravitacional do poder em Teerã
se deslocou, com a decapitação do regime e a guerra de 40 dias pela
sobrevivência.
Ambas as delegações têm especialistas nos diversos temas
envolvidos nas negociações.
Trump está politicamente fragilizado. O choque de energia
triplicou a inflação mensal, de 0,3% em fevereiro para 0,9% em março. O índice
anual saltou de 2,4% para 3,3%. A explosão dos preços dos fertilizantes e do
diesel que move as máquinas agrícolas coincide com o plantio no Meio Oeste e a
colheita no Sul. A causa é uma guerra que os americanos não aprovam e que Trump
se elegeu prometendo não iniciar.
A superioridade militar americana e israelense levou à
destruição de parte substancial da infraestrutura militar e civil do Irã. Esse
previsível ganho militar no estrito senso não se traduz em vitória política e
estratégica, por causa do inédito controle do Estreito de Ormuz pelo Irã. A
inteligência militar russa veio ao socorro do Irã na definição de alvos
americanos e a China se prepara para repor as perdas iranianas em defesa
antiaérea, disseram fontes de inteligência à CNN.
Esse balanço misto pode levar Trump e o regime iraniano a
superestimar sua posição de força nas negociações, privar o outro lado de saída
politicamente aceitável e gerar impasse que prolongue a crise.
A outra ameaça ao acordo é Netanyahu, que precisa de guerra
para chegar competitivo às eleições de 26 de outubro. Trump obrigou o premiê ao
cessar-fogo com o Hamas – violado inúmeras vezes – em janeiro de 2025. Ele o
arrastou para a guerra no Irã, com dados do Mossad sobre chances de derrubar o
regime iraniano que o diretor da CIA, John Ratcliffe, chamou de “farsescos”,
segundo NYT.
ApesardeTrumpterpedidopara Netanyahu parar o bombardeio ao
Hezbollah no Líbano, ele continuou até ontem. Negociações entre Israel e Líbano
começam em Washington na terça-feira.

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