Uma hora a realidade acabaria se impondo. Depois de tentar
resolver a crise do Master atuando nos bastidores, Lula finalmente
compreendeu que abafar o caso ou circunscrevê-lo à oposição não é uma
possibilidade. As pesquisas de opinião vêm mostrando que o Supremo Tribunal
Federal (STF)
está com a imagem enlameada e, embora o escândalo não atinja diretamente o
Palácio do Planalto, a sujeira pode respingar no governo. Não foi por outra
razão que o presidente da República resolveu falar. Numa longa entrevista ao
site de notícias ICL, ontem, ele afirmou que o STF tem de dar “uma explicação
convincente para a sociedade”, porque “essas coisas a gente não joga debaixo do
tapete achando que o povo vai esquecer”. E ainda completou dizendo que, “se o
cara quiser ficar milionário, não pode ser ministro da Suprema Corte”.
Ao comentar sobre o contrato de R$ 130
milhões da mulher do ministro Alexandre
de Moraes com o Master, o presidente tentou tirar a meia sem tirar o
sapato, dizendo que o “companheiro” não poderia permitir que Vorcaro jogasse
fora a sua biografia, mas logo emendou que não havia nada de ilegal no
contrato:
— Primeiro, porque você não estava advogando no seu
escritório há quase 15 anos. Mas, se sua mulher estava advogando, diga que sua
mulher estava advogando, que não tem que pedir licença para fazer as coisas. E
prometa que na Suprema Corte estará impedido de votar em casos [que envolvam] a
sua mulher.
Aliados explicaram que as falas de Lula foram roteirizadas
pelo ministro-chefe da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira, com o
objetivo de descolar o governo da crise sem jogar Moraes na fogueira. O
problema desse plano é que ficou faltando combinar com os russos, ou seja, com
a realidade.
Além de ser impossível dissociar o STF de seu ministro mais
poderoso, Lula se movimenta como se não fosse possível surgir mais nenhuma
novidade sobre Vorcaro e Moraes. Foi o que disseram para ele, mas não é o que
se constata diariamente. Só na última semana, a Folha de S.Paulo revelou que o
ministro e a mulher fizeram sete viagens nos aviões do dono do Master. Viviane
Barci ainda divulgou uma nota dizendo ter ressarcido o Master pelos voos, mas,
dois dias depois, documentos da Receita
Federal desmontaram essa versão, já que nenhum real foi descontado dos
R$ 80 milhões pagos pelo banco ao escritório nos últimos dois anos.
Moraes também não tem ajudado. Enquanto Lula procurava
demonstrar que não tem compromisso com os erros alheios, ele decidiu levar ao
plenário do STF uma tentativa de restringir o alcance e a validade das delações
premiadas. Para isso, tirou da gaveta uma ação de 2021 movida pelo PT. Além de
não ter ouvido o conselho de Lula para ficar longe do caso, ainda se socorreu
de uma ação do partido do presidente para tentar evitar os danos de uma
eventual delação de Daniel
Vorcaro.
Quem também parece não estar plenamente engajado na
estratégia lulista é o presidente do Banco
Central, Gabriel
Galípolo. Em reunião no mês passado com Sidônio e outros ministros, ele
apresentou uma linha do tempo que, de acordo com testemunhas, deixava claro que
o Master só virou o que virou por causa de medidas tomadas por seu
antecessor, Roberto
Campos Neto.
No centro do relato estava o fato de, em fevereiro de 2019,
na gestão de Ilan Goldfajn, o BC ter negado permissão para Vorcaro assumir o
controle do enrolado Máxima e formar o Master. Oito meses depois, já com Campos
Neto no comando, a autorização saiu. Com base nessa informação, Lula afirmou ao
ICL que o “Master é obra, é ovo da serpente do Bolsonaro e do Roberto Campos,
ex-presidente do Banco Central”. E concluiu:
— Se a gente não tomar cuidado, vão tentar dizer que somos
nós.
Contudo, na mesma hora em que o chefe acusava Campos Neto no Palácio do Planalto, do outro lado da Praça dos Três Poderes, Galípolo rasgava o script. Ao depor na CPI do Crime Organizado sobre o caso, ele afirmou que “não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontre qualquer culpa por parte do ex-presidente Roberto Campos”. Negou, ainda, que o antecessor tivesse atuado para impedir uma intervenção ou liquidação do Master ao longo de 2024.
Tudo somado, está claro que Lula foi convencido de que fingir não ter nada a ver com o rolo de Vorcaro não é uma opção e decidiu brigar pelo controle da narrativa. Diante das circunstâncias, era o que lhe restava fazer, mas esse tipo de estratégia exige cuidado dobrado. Sem informações precisas, um script azeitado e atores bem ensaiados, o que deveria ser um roteiro de final feliz pode acabar virando uma tragédia.

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