A ninguém escapa a observação d’este facto curioso que toda
oposição, por mais inexplicável, ou impura, que seja a sua origem, com o andar
do tempo, vai gradativamente ganhando a simpatia pública. A meu ver, não é
difícil encontrar a explicação de tal fenômeno. Pensam em geral que o público é
oposicionista por índole. Mas não, o que o público é por índole, desde que não
entre em questão o imediato interesse dos indivíduos que o compõem – é amigo da
virtude, e, para mim, é regra que a oposição é virtuosa. Esta regra terá
exceções, mas não deixará de ser uma regra.
Assis Brasil, Democracia representativa, 2022,
p. 113¹
Não faltaram os avisos de que o atual incumbente
presidencial não seguiu os caminhos políticos que o elevou ao terceiro mandato.
A Frente Ampla foi assumida como uma tática eleitoral em 2022 deixando a
cultura política da Aliança Democrática (vitória no Colégio Eleitoral em 1985)
a intermitentes referências. A governança esteve “anos luz” de distância da
política de Frente Democrática, portanto ela não está esgotada diante da
política sectária de sobrevivência de uma máquina partidária que empurrou um senhor
conservador filho de Dona Lindu a proferir opiniões de uma pluralidade de
“bolhas”.
Por outro lado, a gestão equivocada da
emergência da COVID-19 acabou por ser um fator definidor da derrota do então
mandatário, que foi o primeiro Presidente a disputar uma reeleição sem ser
vitorioso. Provavelmente, um “ajuste” com o respeito às determinações da OMS,
que o levou a desgastantes conflitos com o governador de São Paulo, gerou uma
queda decisiva na diferença de votos em 2022. Além disso, a determinação de
muitos governadores pelo caminho da ciência se observou até no então governador
de Goiás quando este disse: “Vírus não dialoga”.
No percurso dos estudos de nossa história republicana o
pensamento político brasileiro nos ajuda a compreender os inúmeros cenários em
que as pesquisas eleitorais indicam a manifestação de uma ascensão não
consolidada de três prováveis candidaturas da oposição no segundo turno, todas
com competividade para vencer. Os deslumbramentos daqueles que negaram a Frente
Democrática por todo um mandato empurrou um governo com índices positivos na
economia para as “cordas” em um momento de pré-campanha, ou seja, os palanques
estaduais seriam redefinidos por esses indicadores como observamos no
pragmático recuo da candidatura própria petista no Rio Grande do Sul.
Lições que impõem muita compreensão da grande política
ultrapassando todos os limites. Seja observando melhor os números em Goiás ou
nos tremores eleitorais das forças políticas municipais na Bahia ou Minas
Gerais. Todavia, muito aquém do entendimento de que os partidos políticos ainda
são elementos políticos existentes, o desenho político da candidatura
governista se faz diante da desconfiança dos aliados, uma vez que houve uma
sobrevalorização de quadros intermediários sem votos e qualidades nas funções de
confiança. Enfim, aqueles que não receberam a confiança no momento de governar
agora não confiam no momento de referendar o Governo para um quarto mandato.
Como escreveu Assis Brasil nos idos de 1893,
Uma filosofia muito leviana, que infelizmente inspira ao
grande número, atribui à hipocrisia os verdadeiros arrancos de patriotismo com
que tão comumente vemos, nas assembleias, homens marcados pelo estigma social
lidando ardorosamente na defesa do bem publico. Eu vejo neles alguma coisa,
senão mais respeitável, pelo menos mais natural: são instrumentos de uma função
social. E, como o coração do homem é fundamentalmente bom, e o público, como
tal, é um amontoado de homens desroupados de miseráveis interesses, esse
publico está no caso de amar a virtude pela virtude e aplaude-a sempre, ainda
quando a veja exercida pelo truão da véspera, transformado hoje em tribuno
popular. (BRASIL, p. 114)
A simplificação dos analistas pelo atalho da polarização
política desvaloriza as alianças regionais e locais num mosaico eleitoral que
sempre foi ora liberal ora conservador. Então, os tempos de um “parlamentarismo
orçamentário”, a política de alianças ganhou maior relevância e temos que ter
chefes da Casa Civil distantes do ressentimento em relação a 2016, porém
testemunhamos reformas ministeriais que são ou para supostamente tentar afastar
“crises” ou para nada de relevante manifestar com o eleitorado. Se a indicação
da candidatura de Geraldo Alckmin foi uma segunda “Carta aos Brasileiros”, não
observamos no horizonte tamanha ousadia mesmo diante dos acenos de algumas
lideranças evangélicas que já estiveram no outro campo eleitoral. Não é o
momento de preencher treads vistos pelos potenciais eleitores,
porque o eleitor conservador precisa voltar. “O povo aplaude as bonitas ideias,
porém maior é a força com que ama a sua comodidade. (…) A oposição sabe que o
melhor meio de fazer odioso um governo é demonstrar que ele gasta mal, ou
defrauda o dinheiro da nação.” (BRASIL, p. 114)
Se a minoria é liberal, não podemos desconsiderar as
qualidades democráticas de amplos setores conservadores, que foram
estigmatizados em muitos momentos e confundidos como linha auxiliar do
extremismo de direita. “(…)Tomem-se para a patrulha oposicionista do congresso
os conservadores e reacionários de mais dura crosta, e seguramente serão
ardentes apóstolos de todas as liberdades.(…)” (BRASIL, p. 115). Portanto, as
vantagens da oposição podem ser momentâneas se partir do ponto que falta à
Frente Democrática para configurar uma comunicação política. No contrário, o
vazio só afastará outros eleitores do campo democrático, uma vez que há uma
ausência sobre a recomposição do centro político brasileiro.
¹ – BRASIL, Joaquim Francisco de Assis,
1857-1938. Democracia representativa: do voto e do modo de votar. Apresentação
de Roberto Maynard Frank; prefácio de Jaime Barreiros Neto. Salvador:
Tribunal Regional Eleitoral da Bahia- Escola Judiciária Eleitoral, 2022.
*Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO e defendeu a
dissertação de mestrado A Leitura do Brasil em Victor Nunes Leal no
CPDA-UFRRJ.

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