quarta-feira, 8 de abril de 2026

VORCARO E O CASO TORTORA

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

Quantos bilhões e quem Vorcaro vai entregar em troca de sua liberdade?

Delação aos procuradores do banqueiro não pode se transformar em mais um blefe para manter seu dinheiro ou criar no Brasil um caso Enzo Tortora

Era 17 de junho, 4h30. Em Via del Corso, em Roma, carabineiros prendiam o jornalista Enzo Tortora, apresentador de um dos programas de maior audiência da Itália: Portobello. Começava o calvário daquele que é considerado o maior erro judicial da história recente da Itália.

Quem quiser conhecer melhor essa história basta ir à HBO Max para assistir à série dirigida por Marco Bellocchio. Tortora era um Fausto Silva em seu país. Foi denunciado por dois integrantes da Nova Camorra Organizada como traficante de droga. Os bandidos precisavam entregar um nome excelente aos procuradores a fim de que lhes fossem concedidos os benefícios da delação premiada. Tortora foi a cereja no bolo dos malandros, que “confessaram” como arrependidos. Após três anos, o jornalista, que renunciou à imunidade do mandato no Parlamento Europeu para responder como simples cidadão ao processo, provou sua inocência.

Quarenta anos depois do caso Tortora, é este o desafio para a Procuradoria-Geral da República por trás da colaboração premiada do banqueiro Daniel Vorcaro. Afinal, o que o acusado planeja? Advogados que conhecem o banqueiro afirmam que o montante de dinheiro que Vorcaro vai entregar será a melhor medida para saber a idoneidade de sua colaboração. Quantos bilhões o homem está disposto a devolver às vítimas de sua arruaça financeira? O segundo ponto levantado é sobre quem Vorcaro pretende entregar.

Afinal, seu desejo é se vingar de quem liquidou seu banco e o mandou para a cadeia? Para preservar seu dinheiro, ele pretende produzir que tipo de acusações? E contra quem? Vai tentar esconder os políticos que, de forma notória, tentaram protegêlo, questionando até mesmo a liquidação do Master? Vai contar o que o moveu a se relacionar com ministros do STF ou vai delatar só aquilo que a PF já sabe? Vai contar o papel de Benjamin Botelho na história do Master? Vai dizer onde está seu dinheiro? Enfim...

Ao depor na Corte de Apelação, Tortora disse: “A continuar assim, os homens serão divididos em duas categorias: os criminosos irredutíveis e os arrependidos ( delatores), com uma terrível terceira possibilidade: a dos irredutivelmente inocentes”. Tortora mostrou as armadilhas da delação. A ansiedade do público para saber os nomes dos acusados e a instrumentalização política de casos como o de Vorcaro recomendam cautela. Nos comitês políticos, poucos se interessam sobre como e quais benefícios Vorcaro vai obter com o acordo. Se preservar seu dinheiro, será visto apenas como um novo Joesley Batista. Quanto aos nomes que fizer, os cínicos sempre poderão dizer que não há inocentes neste mundo.

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