Na visão dos bolsonaristas, a Pseudomonas aeruginosa é um
micro-organismo de esquerda
Durante os últimos anos, nos acostumamos a testemunhar
repetidos factoides criados pela ultradireita, seja o bolsonarismo, sejam
outros grupos extremistas, como o MBL. Por vezes tais episódios ocorrem no
âmbito de interações humanas diretas, como em provocações e assédios a
desafetos ideológicos, sempre registrados em vídeos que possam ser replicados
no mundo virtual. Assim, provocadores e assediadores se apresentam como
justiceiros em defesa da moralidade pública e vítimas do que seria a
intolerância de seus alvos, pegos em armadilhas quando reagem a agressões
sofridas. O esculacho no mundo real torna-se lacração no virtual, excitando
seguidores, que podem dar vazão a seus instintos mais primitivos.
Noutras ocasiões, os episódios têm lugar
somente no mundo virtual pela disseminação de desinformação, tanto na forma de
mentiras puras e simples quanto por insinuações e distorção de fatos,
apresentados descontextualizadamente ou interpretados de forma descabida, porém
conveniente à narrativa extremista. Exemplo disso foi a campanha do deputado
Nikolas Ferreira (PL-MG) contra a fiscalização de movimentações do PIX acima de
certo valor, medida necessária para combater a lavagem de dinheiro pelo crime
organizado. Em vídeo disseminado nas redes, o deputado insinuava que o governo
taxaria transferências e bisbilhotaria movimentações financeiras dos cidadãos.
O impacto foi tão negativo para o governo Lula que levou o presidente a
determinar o cancelamento da medida, decerto agradando ao extremismo de direita
e ao crime organizado, que se abraçaram.
O último factoide da ultradireita brasileira foi produzido
no contexto de uma fiscalização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
sobre a Química Amparo, fabricante dos produtos de limpeza da marca Ypê.
Técnicos da agência identificaram que os itens eram fabricados em precárias
condições de higiene e lotes de uma série de produtos estariam contaminados
pela bactéria Pseudomonas aeruginosa, micro-organismo muito resistente a
antibióticos. Cidadãos com baixa imunidade ou ferimentos poderiam ser vítimas,
caso manipulassem produtos contaminados, correndo o risco de infecções que, em
alguns casos, poderiam ser graves e até mesmo levar a óbito.
O que seria apenas uma ação técnica rotineira, de um órgão
cuja missão inclui justamente identificar tais riscos e tomar as devidas
providências, tornou-se um cavalo de batalha ideológico para disseminar teorias
da conspiração, segundo as quais a empresa química seria alvo de perseguição
política. Como seus controladores apoiaram financeiramente a candidatura
presidencial de Jair Bolsonaro em 2022, além de promover assédio eleitoral
contra funcionários (acarretando condenação pela Justiça do Trabalho), políticos,
influenciadores e mesmo cidadãos comuns de ultradireita iniciaram campanha em
defesa da companhia, alegando que a medida da Anvisa seria retaliação do
governo Lula contra o bolsonarismo de seus dirigentes. Ao que parece, para
bolsonaristas e assemelhados, a Pseudomonas aeruginosa é de esquerda.
Este episódio explicita o modus operandi da ultradireita
no Brasil e alhures. A lógica do movimento requer a ativação constante de sua
base social e a partidarização de tudo que favoreça tal objetivo, promovendo
guerras culturais. Por isso, nem sequer bens de consumo escapam à dinâmica e
qualquer coisa que pareça passível de ideologização, assim será. Ocorreu com os
chinelos Havaianas, com o biscoito Bis e, agora, com os produtos Ypê. A
contrapartida, além do pânico moral criado, é promover produtos concorrentes
daqueles identificados com a esquerda, punindo as marcas ideologicamente
desalinhadas, bem como premiar os identificados com a direita. Não à toa, houve
até quem se filmasse bebendo detergente no gargalo.
A construção dessas dinâmicas e teorias da conspiração
funda-se em afetos, identidades e crenças. A emotividade ideológica, a
identificação com um grupo político e os credos prévios levam a aceitar certas
narrativas e importam mais que a consideração racional de fatos. Foi assim
durante a pandemia com o negacionismo em relação ao perigo do vírus ou às
mortes por ele causadas – houve quem acreditasse que caixões eram recheados com
pedras e tijolos para simular os óbitos – e com a prescrição do “tratamento precoce”.
Portanto, este evento, embora inserido na campanha eleitoral, não se restringe
a ela. Integra uma dinâmica constante da ultradireita, inclusive quando no
governo, como vimos no quadriênio presidencial bolsonarista.
Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20
de maio de 2026.

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