Ortodoxos ou heterodoxos, os arautos da economia de
manual se recusam a enxergar a realidade
Mr. Magoo, personagem de desenho animado nos bons tempos da
televisão. Um velhinho bem de vida, teimoso e com deficiência visual, se
recusava a usar óculos. Sua péssima visão, causada pela miopia, o colocava
sempre em situações perigosas e engraçadas. Onde sempre escapava ileso. Nossos Magoos
da macroeconomia de manual também se recusam a usar óculos. Sua deficiência não
é visual, é uma miopia em relação à realidade e às relações econômicas. A
deficiência visual é democrática, essa miopia se estende aos ortodoxos e
heterodoxos. Ambos têm seus campos de visão estreitos e dividem a economia,
enxergando-a em blocos. O sistema financeiro e o rentismo são vistos como
anomalias do sistema, um tumor, uma metástase disfuncional.
E nossos Magoos não conseguem nem querem
enxergar a economia como um todo. Combatem a especulação financeira, como uma
questão moral. O capital fictício (capital financeiro), nessa visão, não produz
nada além de dinheiro. Perguntar não ofende: nas várias atividades econômicas
do capitalismo, o objetivo não é ganhar dinheiro? Segmentam o capital em
capital produtivo e capital financeiro, mas ambos estão submetidos ao conceito
de capital.
No capitalismo, as decisões sobre a posse da riqueza são
movidas pelos “espíritos animais” e supõem a especulação permanente sobre o
futuro, o que envolve a contínua reavaliação do presente. Tais decisões estão
apoiadas no crédito e se baseiam, portanto, num certo “estado de confiança”,
isto é, não há fundamentos que possam livrá-las da incerteza e da possibilidade
de risco sistêmico. Apoiados em convenções e constrangidos pela concorrência,
os detentores de riqueza não podem escapar dos estados de euforia e de apetite
pelo risco, que, não raro, culminam na decepção, na crise e na desvalorização
da riqueza.
Outra dúvida aos nossos Magoos: aquela pessoa que produz
bolo para vender na porta de uma estação de metrô não é especuladora? Quando
sai de casa, acredita que vai vender todos os bolos, portanto, especula.
Especular está na genética do capitalismo.
Me desculpem os leitores, vamos recorrer a Marx, Keynes e
Schumpeter, para tentar curar a miopia de nossos Magoos a respeito do dinheiro.
Recorremos a Karl Marx: “O capital a juros compostos sobre
cada uma das partes do capital poupado é tão assombroso que toda a riqueza
produtiva de renda que há no mundo converteu-se, há muito tempo, em juros do
capital… dinheiro que engendra mais dinheiro, valor que valoriza a si mesmo…
para todos os capitalistas ativos, operem eles com capital próprio ou com
capital emprestado”.
No capitalismo, as decisões sobre a posse da riqueza
supõem a especulação permanente sobre o futuro
Vamos convocar Keynes: “Quando comecei a escrever meu
Tratado Sobre a Moeda, eu ainda estava me movendo ao longo das linhas
tradicionais, encarando a influência da moeda como algo, por assim dizer,
separado da teoria geral da oferta e da demanda. Quando terminei de escrever o
livro, tinha feito algum progresso na tentativa de encaminhar a teoria
monetária no sentido de se tornar uma teoria da produção como um todo”.
Schumpeter afirma: “Assim sendo, não podemos nos afastar da
base monetária do juro. Isso constitui uma prova indireta de que se deve
preferir uma segunda interpretação do significado da forma-dinheiro em que o
juro nos chega, a saber, de que essa forma-dinheiro não é uma casca, mas o
cerne”.
Nos modelos Magoos, não existe dinheiro, só preços, porque o
dinheiro atrapalha. Existe renda, mas, pasmem, não é monetária. Separam o mundo
em dois blocos, o lado real e o lado monetário da economia. Nosso trio de
economistas citados ficaria estarrecido, o lado produtivo não tem dinheiro. O
principal objetivo de uma empresa ao investir em máquinas é fabricar produtos
como meio de ganhar dinheiro. Nosso produtor de máquinas não é especulador
porque não é rentista. Investir é pensar no que vai acontecer daqui para a
frente. Isso não é especular?
Na miopia de nossos Magoos, não existe tempo, tudo é
automático, racional e causa-efeito, afinal, nesse mundo criado por eles, tudo
se equilibra. Talvez essa seja a causa do desprezo que têm pelo mercado futuro
e pelos derivativos. Um derivativo ou contrato futuro pode trazer qualquer
prazo futuro para o presente.
O jurista português Helder Mourato ensina: o derivativo é
uma situação jurídica a prazo (por oposição a situações jurídicas à vista), em
que o tempo é elemento essencial do negócio, quer para a determinação do preço,
quer para o cumprimento de prestações, quer ainda para a transmissão da
titularidade dos ativos.
Trata-se de instrumentos que permitem a chamada alavancagem
(ou leverage) de preços, uma vez que o investimento inicial necessário para a
subscrição do produto financeiro derivado equivale a uma pequena parte do
investimento a prazo.
De tal modo que a exposição ao risco é muito superior ao
capital inicialmente investido, o que significa que, no fim do prazo, o
investidor pode ser presenteado com uma quantia financeira (dinheiro ou ativos)
de valor muito superior ao capital investido ou, pelo contrário, ver-se a
braços com uma dívida também de valor muito superior ao capital inicialmente
investido.
Os swaps de taxa de juro representam atualmente cerca de 80%
do volume total dos negócios de swap, mas a verdade é que nem sempre foi assim.
Os primeiros swaps foram de divisas: operações financeiras complexas, montadas
com o intuito de contornar barreiras nacionais relativas ao câmbio.
Diferente de nosso velhinho do desenho animado, que se nega
a usar óculos para enxergar. O derivativo é a expressão máxima do capital
fictício (financeiro). Ele permite determinar o preço de qualquer coisa e o
prazo a qualquer momento. Impedem que nós, economistas, deixemos de ser magos e
continuemos a reproduzir uma macroeconomia obsoleta. Uma visão míope da realidade
e da economia!
Em terra de cego quem tem um olho é rei.
Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20
de maio de 2026.

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