Flávio é visto com desconfiança, não só por sua tentativa
de parecer menos radical, mas pelo passivo de escândalos envolvendo seu nome. A
revelação sobre o Master prejudica muito Flávio Bolsonaro e reforça o peso de
Michelle
A divulgação do áudio com a voz do pré-candidato Flávio
Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro foi o fato político mais
importante da semana, não só pelo conteúdo das mensagens em si, mas pelos
desdobramentos após a notícia ser veiculada. As manifestações constrangidas ou
forçosamente indignadas dos aliados são reveladoras de um aspecto evidente da
candidatura: sua fragilidade.
Embora Flávio Bolsonaro seja um candidato
muito competitivo, sobretudo em razão do nome que carrega, a conjuntura que o
ungiu é um campo minado: a direita conservadora nunca esteve tão fragmentada, e
as reações ao áudio o demonstra bem. Romeu Zema afirmou que o áudio é
um "tapa na cara do Brasil", dizendo ainda que é "preciso ter
credibilidade para mudar o Brasil". Ronaldo Caiado, outro
presidenciável, cobrou um posicionamento, dizendo que Flávio Bolsonaro deve
explicações sobre as mensagens.
A rapidez das reações e o tom indignado mostram que o senso
de oportunismo falou mais alto do que o cálculo dos custos de se bater de
frente com a família. No passado, a simples ideia de ser considerado infiel
pelo núcleo duro de Jair Bolsonaro suscitava o medo de políticos de
direita cuja sobrevivência dependia do capital político angariado pelo
bolsonarismo raiz. Essa dependência, hoje, parece mais tênue.
As causas são várias e convergentes. Existe uma disputa
aberta pelo protagonismo e liderança dentro do campo. Flávio e Michelle
Bolsonaro parecem traçar projetos distintos. A ex-primeira-dama resiste a ceder
espaço, justamente por perceber a importância do seu nome, em termos
eleitorais, para o êxito de qualquer candidatura à direita. Depois da prisão de
Jair Bolsonaro, foi Michelle, e não um dos filhos, que personificou, no
imaginário do eleitor bolsonarista, a identidade leal aos valores do grupo. Flávio,
em contrapartida, é visto com desconfiança, não só por sua tentativa de parecer
menos radical, mas pelo passivo de escândalos envolvendo seu nome. A revelação
sobre o Master prejudica muito Flávio Bolsonaro e reforça o peso de
Michelle. Para ela, chegou como um golpe de sorte.
Embora o desempenho da pré-candidatura bolsonarista tenha
empolgado os seus articuladores e despertado o temor de uma virada em favor da
direita, ainda há muita instabilidade no cenário. Longos meses nos afastam da
eleição e, num cenário de polarização cristalizada, os resultados são tão
imprevisíveis quanto cambiantes.
Não é possível afirmar que a revelação da semana tenha comprometido de forma
definitiva a viabilidade de Flávio Bolsonaro, mas certamente deve evidenciar o
quão frágil é a posição do filho do ex-presidente e, por consequência, de todos
os aliados que vão para o tudo ou nada nesta eleição de recall.
*Professora de Direito na UFCE.

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