Condescendência com acusações e instabilidades ligadas ao
clã não se explica nem por dados econômicos e fiscais do governo de Jair
A forma como parte da elite econômica e política espera para
ver se a candidatura de Flávio Bolsonaro fica de pé diante das evidências quase
diárias de uma relação constante com Daniel Vorcaro escancara um fenômeno
conhecido, mas que se renova a despeito dos fatos: a enorme condescendência
desses estamentos com todo tipo de instabilidade que a família Bolsonaro é
capaz de provocar, algo inexistente em relação a qualquer outro grupo político.
A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, se deu a despeito da
profusão de evidências de evolução patrimonial do patriarca e dos filhos
incompatível com a atividade parlamentar de todos eles, do histórico
antiliberal do “capitão” recém-associado a Paulo Guedes e de outras
inconsistências.
Os quatro anos de mandato de Bolsonaro
trouxeram à tona detalhes da relação do ex-deputado estadual Flávio, então já
senador, com seu ex-braço direito Fabrício Queiroz, evidências de prática de
rachadinha em seu gabinete, de mais movimentações financeiras apontadas pelo
Coaf como suspeitas, de relacionamento com ex-policiais ligados à milícia, mais
compra de patrimônio imobiliário em transações milionárias e em dinheiro vivo —
e tudo foi aceito.
A gestão da pandemia expôs um presidente avesso à ciência,
disposto a dinamitar o Programa Nacional de Imunizações, incentivando que se
“passasse a boiada” em desmonte ambiental aproveitando o isolamento, zombando
de medidas sanitárias e de mortes, trocando ministros da Saúde como quem mudava
de camisa do Brasil. Houve abalo a sua imagem, mas ele quase foi reeleito.
Vieram o 8 de janeiro de 2023 e aquela destruição sem
precedentes em Brasília, por uma turba mantida em acampamentos em frente a
quartéis por meses, incentivada por um presidente que abdicou do exercício do
cargo desde a derrota no segundo turno, depois deixou o país sem passar o cargo
ao sucessor. Houve repúdio generalizado de imediato, mas logo depois passou-se
a relativizar a gravidade do que aconteceu, como se fosse apenas coisa de donas
de casa armadas de batom.
Por fim, o processo da trama golpista expôs a realização de
uma reunião ministerial gravada em vídeo em que se discutiram opções até para
melar as eleições. Vieram à tona um plano para matar autoridade e minutas de
diferentes estados de exceção. O primeiro ex-presidente do Brasil foi condenado
por tramar um golpe de Estado.
E, ainda assim, uma parcela majoritária de nossos tomadores
de decisão permanece aferrada aos desígnios desse líder, agora preso, a ponto
de rapidamente assimilar aquilo que não queria: um presidenciável da própria
família. Foi escolhida a segunda opção, porque o primeiro cogitado estava nos
Estados Unidos havia meses obtendo sanções econômicas e políticas contra o
Brasil.
Agora, diante de um áudio reconhecido pelo próprio
pré-candidato como autêntico, pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro já enrolado
para um filme sobre o pai, com recursos geridos por um fundo sem nenhuma
transparência, existe uma torcida silenciosa para que a tempestade passe, e a
motociata siga.
É difícil compreender, apenas à luz da ideologia, tal
complacência. Não foi vista em escândalos envolvendo políticos do PT ou mesmo
do PSDB. Basta ver a descida ao inferno de Aécio Neves por muito menos que esse
acervo do “azarão” e sua prole.
O resultado econômico e fiscal sob Bolsonaro e Guedes não
explica tal devoção imune a fatos. O antigo teto de gastos foi seguidamente
excedido, houve a pedalada com precatórios e toda sorte de medida eleitoreira,
inclusive elevando despesas assistenciais — um dos pecados sempre apontado nas
gestões petistas.
As pesquisas e as novas revelações (que não param de
aparecer, a despeito das velas acesas na Faria Lima) dirão se Flávio se segura.
Mas a disposição a passar pano com desinfetante para tudo o que tenha o
sobrenome Bolsonaro é um traço distópico dos nossos tempos que precisará ser
explicado nos livros de História, com as consequências dela decorrentes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário