Detergente no gargalo é novo retrato do vale-tudo
bolsonarista nas redes
Políticos atacam Anvisa e fazem discurso anticiência em
busca de engajamento e voto
O vídeo circula desde domingo, impulsionado por perfis de
extrema direita. Um homem de boné e camiseta bebe um frasco de detergente até a
última gota. Suga o líquido com vontade, como se matasse a sede após atravessar
o deserto. Em seguida, vira-se para a câmera e faz um gesto obsceno. “Aqui para
você, petista”, provoca, exibindo o dedo médio.
O detergente é da marca Ypê, que teve a fabricação suspensa
na semana passada. A decisão foi da Agência Nacional de Vigilância Sanitária,
que apontou risco de contaminação num lote inteiro de produtos de limpeza. Para
os bolsonaristas, tudo não passou de um complô. O objetivo seria prejudicar a
empresa, cujos donos doaram R$ 1,5 milhão à campanha do capitão em 2022.
O homem de boné não está sozinho. As redes
sociais ficaram apinhadas de vídeos semelhantes, em que anônimos e
subcelebridades se lambuzam de detergente sob suspeita. “Já tomei banho com
Ypê”, garante um ator de telenovelas. “Se eu não usar, passo até mal”, jura uma
cantora de funk.
Enquanto os aspirantes à fama caçam cliques, políticos usam
o tema para caçar votos. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou uma
foto do detergente ao sol, sob a legenda “Que dia lindo”. O senador Cleitinho
Azevedo se deixou filmar espirrando o produto num córrego com esgoto a céu
aberto, como se uma bactéria justificasse a outra. O deputado Sargento Fahur
preferiu usar um frasco na versão amarela para lavar o bigode.
Não é a primeira vez que a turma se insurge contra decisões
técnicas da Anvisa. Na pandemia, Jair Bolsonaro se irritou porque a autoridade
sanitária não aceitou receitar vermífugo como remédio contra a Covid-19. Depois
estrilou quando a agência autorizou a vacinação de crianças. “Qual é o
interesse da Anvisa por trás disso aí?”, questionou, no mesmo tom dos patriotas
que agora fazem degustação de detergente.
O discurso anticiência já foi sinônimo de ignorância. Hoje
parece ser visto como uma ferramenta a mais na batalha política. Em busca de
engajamento nas redes, extremistas espalham desinformação e investem contra a
saúde pública. Para mobilizar a tropa, vale tudo. Até tomar bactéria no
gargalo.

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