Candidato bolsonarista tropeça na suspeita de corrupção,
quesito mais valorizado pela direita
Que a pré-candidatura do senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) era de papel já se sabia. O que não se imaginava era
que incinerasse tão cedo. A quase cinco meses do primeiro turno, ainda há tempo
de seu partido emplacar outro nome. Michelle? É o estepe natural,
até porque sempre pareceu menos vulnerável como candidata - e menos previsível
como presidente - que o enteado.
Para pôr em pé uma candidatura, a ex-primeira-dama
enfrentaria a dificuldade de encabeçar o mesmo combo de interesses reunidos em
torno do senador - do marido ao Centrão, passando por investidores cuja
frustração com a reportagem do “The Intercept”, na tarde desta quarta, fizeram
balançar bolsa e câmbio.
Oferece, por outro lado, maior
competitividade eleitoral que o enteado, a entrada num eleitorado superior, em
8,4 milhões, ao masculino e a lealdade de um segmento (evangélico) que, na
largada, tem 27% do colégio eleitoral do país. A decisão estará, em grande
parte, nas mãos do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, do líder
do partido no Senado, Rogério Marinho (RN), que hoje é
coordenador da campanha presidencial do PL e, principalmente, do
ex-presidente Jair Bolsonaro.
Michelle, porém, assumiria a candidatura de um bloco
trincado pelas relações dos enteados com o Master. As percepções de
um importante dirigente partidário, colhidas no calor da repercussão dos
diálogos entre o senador e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, são de
que pesam contra Flávio Bolsonaro a afronta ao decoro e a
suspeita de lavagem de dinheiro.
A primeira deriva da mentira do senador de que não conhecia
o ex-banqueiro quando os diálogos reproduzidos na reportagem revelam que não
apenas se frequentavam como se tratam por “irmãos”.
A segunda vem das pistas que indicam depósitos de Vorcaro
num fundo ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro no Texas.
Além disso, avalia este dirigente, os valores mencionados - um pedido de R$ 134
milhões que teria resultado em pagamentos de R$ 61 milhões - para a finalização
de um filme sobre o ex-presidente é muito superior ao praticado no mercado de cinema.
O que se está a sugerir é que os irmãos Bolsonaro, mais do
que um filme quase cinco vezes mais caro que “O Agente Secreto”, pretenderam se
valer da proximidade com o ex-banqueiro para fazer caixa. A suspeita faz do
senador Ciro Nogueira (PP-PI) um eterno aprendiz.
O presidente do Progressistas pretendeu dissimular o ato de
ofício configurado na proposta de elevação da cobertura do Fundo Garantidor de
Crédito, a “emenda Master”, com sua reapresentação. O pré-candidato do
PL não pediu a renovação do patrocínio do Master ao filme do pai. Limitou-se a
insistir na CPI do Master para repisar a tese de que é o PT
que resiste à investigação.
A
rodada desta quarta da Genial/Quaest trouxe uma prévia do estrago
potencial desta revelação sobre as relações de Flávio Bolsonaro com Vorcaro. A
principal preocupação do eleitor é a violência (31%), seguida, com folga, pela
corrupção (18%). Na direita, porém, os dois problemas estão empatados. O
“governo Bolsonaro”, que aparece como o quarto “culpado” pelo escândalo do
Master, corre o risco de subir de patamar.
Nas notas e vídeos divulgados na tarde de quarta, Flávio
Bolsonaro sugeriu que vai cair atirando no PT da Bahia, cujo senador, Jaques
Wagner, deu a cara à tapa na tribuna dizendo que seu pecado foi privatizar
uma rede de supermercados populares posteriormente revendida ao Master.
Se o senador petista tem um depósito na conta de sua enteada a esclarecer,
contra o pré-candidato bolsonarista à Presidência resta o pedido de dinheiro às
vésperas da liquidação do banco e da primeira prisão de Vorcaro.
Não bastasse o desgaste a ser angariado na tentativa de
ampliar ao centro, Flávio Bolsonaro tende a se deteriorar no
próprio nicho da direita, abrindo espaço para Michelle. Perde
a credibilidade de criticar Alexandre de Moraes pelo contrato do
escritório da esposa do ministro com Vorcaro porque, na verdade, concorreu pelo
dinheiro do ex-banqueiro.
A ex-primeira-dama, se consolidada como candidata, não
teria, porém, uma avenida desimpedida. A pesquisa da semana mostra que o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva recuperou terreno junto
às mulheres, segmento mais receptivo às políticas públicas do que o dos homens.
Uma delas, aliás, a desoneração do Imposto de Renda até
cinco salários mínimos, que parecia ter se desmanchado no ar, deu, finalmente,
o ar de sua graça. Na pesquisa divulgada nessa quarta, eleitores de todas as
faixas de renda, mas, especialmente aqueles ganham até dois salários mínimos,
finalmente registraram um impacto positivo da isenção no patamar de oito pontos
percentuais.
O potencial de recuperação do eleitorado feminino que, nos últimos meses, se distanciou de Lula ainda deve crescer com o Desenrola 2, programa de renegociação de dívidas majoritariamente aprovado, e com o fim da “taxa das blusinhas” que, definida em medida provisória na noite de terça, ainda não teve seu impacto medido em pesquisas.
Desnecessário para uns, ante o provável desmanche de Flávio Bolsonaro, o fim da “taxa das blusinhas” pode acabar por criar, para outros, uma capa de gordura necessária a Lula face à chegada de Michelle no pedaço.

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