ÁUDIO: Mario Frias agradeceu Daniel Vorcaro por apoio a
filme sobre Jair Bolsonaro
Essa é uma edição especial da newsletter Cartas Marcadas,
assinada por boa parte dos autores da investigação que chacoalhou o Brasil nos
últimos dias. A proposta inicial do mês de maio é que esse espaço seria
dedicado apenas a reportagens sobre a tramitação da escala 6×1.
Fizemos isso nas primeiras duas semanas, nos debruçando
sobre o lobby empresarial que usa a extrema direita para atravancar a proposta.
Mas, no meio do caminho, veio um turbilhão. O Intercept Brasil publicou o
maior furo jornalístico do país desde as revelações da Vaza Jato:
as mensagens secretas que colocam a família Bolsonaro no centro do escândalo do
Banco Master, de Daniel Vorcaro.
É claro que não abriremos mão de nossa cobertura da urgente
luta dos milhões de trabalhadores que suportam o desumano regime 6×1. Mas
faremos uma pausa porque sabemos que a nossa audiência anseia por mais
informações sobre a relação do bolsonarismo com o Banco Master.
Portanto, resolvemos mudar os planos e, nesta semana,
brindar os leitores com mais um capítulo de nossa investigação: o áudio e as
mensagens de texto que revelam a proximidade de mais um líder da extrema
direita no Congresso com Daniel Vorcaro. Vamos aos fatos.
Pouco menos de uma hora após o horário em que estava
previsto um encontro entre o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro,
e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, no dia 11 de dezembro de 2024, em
Brasília, o deputado federal Mario Frias, do PL de São Paulo, enviou um áudio
ao banqueiro agradecendo pelo apoio ao filme “Dark Horse”.
Na gravação, obtida com exclusividade pelo Intercept, Frias
afirma que o longa sobre Jair Bolsonaro “vai mexer com o coração de muita
gente”, será “muito importante para o nosso país” e pede autorização para
informar Vorcaro sobre o andamento da produção.
O registro mostra intimidade entre Frias e Vorcaro, algo que
o deputado vem tentando esconder. Na semana passada, após o Intercept revelar
que o senador Flávio Bolsonaro havia
negociado R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar o filme “Dark
Horse”, Frias disse que o banqueiro não
havia dado “um único centavo” para o longa-metragem.
Cerca de 20 horas depois, o deputado emitiu outra nota e
disse que havia “uma
diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”. Ele
destacou apenas que Vorcaro ou o Banco Master não haviam aparecido como
investidores. A postura demonstra um distanciamento entre os dois – uma versão
que um áudio e mensagens obtidas com exclusividade pelo Intercept desmontam.
O conteúdo indica que, além de produtor-executivo de “Dark
Horse”, o ex-secretário especial de Cultura de Jair Bolsonaro atuava
diretamente na articulação do filme financiado pelo banqueiro, que viria a ser
investigado pela maior fraude bancária da história do país.
Na gravação, enviada por WhatsApp para Vorcaro em 11 de
dezembro de 2024, às 18h24, Frias diz: “Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer
com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá?
Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?”
Imediatamente depois, Vorcaro responde: “Eu to numa ligação te chamo em
seguida”. Frias diz “Blz” e, às 19h06, os dois se falam por ligação de voz
durante cerca de 2 minutos.
Como já apontamos no início do texto, o agradecimento veio
menos de uma hora após o horário previsto para o encontro entre Flávio
Bolsonaro e Vorcaro, naquele dia, na residência do banqueiro em Brasília.
Segundo mensagens reveladas pelo Intercept, a reunião foi organizada por Thiago
Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, para tratar do financiamento do
filme biográfico internacional sobre Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro participava de uma reunião da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, a CCJ, no Senado naquele dia e deixou a sua cadeira por volta de 17h30, no horário em que havia sido marcado o encontro. Só voltou às 18h, o que indica que uma possível participação na reunião teria ocorrido de forma remota ou em outro local. O Intercept não conseguiu confirmar se o encontro, de fato, ocorreu.
Na sequência do áudio, Frias mandou novas mensagens ao
banqueiro. Em 15 de dezembro de 2024, o deputado enviou uma captura de tela a
Vorcaro que exibe uma troca de mensagens entre ele e o diretor Cyrus Nowrasteh,
revelando negociações preliminares para a produção de uma obra sobre “um homem
comum que se tornou presidente por um milagre”.
No diálogo, o diretor se compromete a conversar com o ator Jim Caviezel sobre o projeto, alertando, contudo, que o astro fará duas perguntas: “1) Posso ler o roteiro? 2) Eles vão me pagar bem?”. Frias respondeu que o ator “será imortalizado por esse papel”.
Abaixo do print, Frias escreveu para Vorcaro: “Milagres só são possíveis quando a fé”, “Esse é um desses milagres” e “Vai ser a maior super produção de uma história brasileira”. Aparentemente, na primeira frase, o parlamentar quis dizer “quando há fé”.
Em 22 de dezembro de 2024, houve outra conversa entre o deputado e Vorcaro. O banqueiro disse, às 10h19, que estava na igreja e prometeu chamá-lo quando saísse. Frias não se conteve e, uma hora e 16 minutos depois, antes mesmo que Vorcaro avisasse que estava disponível, escreveu que o filme seria “o grande milagre”, capaz de tocar “milhões de pessoas em todo mundo”, e teria “um papel histórico imprescindível para as futuras gerações”. Disse ainda que o longa-metragem sobre o ex-presidente era uma “questão de justiça divina”, ao que Vorcaro respondeu, às 11h40: “Tenho certeza disso”. “JB precisa ter sua verdadeira história revelada”, acrescentou Mario Frias. Em outra mensagem, afirmou: “2026 é do Brasil” e depois, frisou: “Deus te abençoe meu Brother”.
As mensagens mostram que a relação entre Frias e Vorcaro ia
além de um contato protocolar entre um potencial investidor e um produtor. O
deputado também chamava o banqueiro de “meu irmão”, fazia elogios em tom
religioso e demonstrava acompanhar de perto o desenvolvimento da obra.
Frias, que foi produtor-executivo de “Dark Horse” e
peça-chave na articulação da obra com o banqueiro investigado pela maior fraude
bancária do país, passou a propagar mentiras nas redes sociais, na tentativa de
descredibilizar as reportagens do Intercept.
Como revelamos no
último sábado, o parlamentar compartilhou, no dia 14 de maio, publicações
falsas alegando que o Intercept teria recuado sobre as cifras do filme sobre a
vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O rastreamento da autoria dos conteúdos compartilhados por
Frias expõe uma rede de desinformação financiada e estruturalmente ligada ao
PL, partido do deputado. O site diario360, por exemplo, pertence a Fagner
Leandro de Lima, secretário parlamentar do também deputado federal André
Fernandes, do PL do Ceará e tesoureiro da sigla no estado.
Já a página Hora Brasília é registrada em nome de uma
empresa de Hugo Alves dos Santos, aliado próximo do bolsonarista Oswaldo
Eustáquio. A firma de comunicação atuou nas eleições de 2024 como fornecedora
de duas campanhas do PL, recebendo R$ 55 mil de candidatos a vereador, em
Atibaia, no interior de São Paulo. Foi nessa cidade que Fabrício Queiroz,
ex-assessor de Flávio Bolsonaro, foi
preso, em 2020, na casa do advogado da família Bolsonaro, Frederik
Wassef, num desdobramento da investigação que apurava o esquema de rachadinhas
na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Outro lado
Após a publicação da primeira reportagem da série, a defesa
de Mario Frias confirmou que o deputado manteve contato com Vorcaro, mas
afirmou que as mensagens “refletem apenas uma relação legítima entre
idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa”. Segundo
os advogados, Frias não exerceu papel de articulador político ou financeiro em
nome do banqueiro.
A defesa acrescentou que o entusiasmo manifestado nas
conversas privadas decorria da “dimensão artística e cultural do projeto”.
Procuramos Mario Frias nesta terça-feira, 19, por meio de sua assessoria. Não
houve resposta até a publicação desta reportagem.
O PL também foi procurado, mas não respondeu. O espaço segue
aberto.
A defesa de Daniel Vorcaro foi procurada, mas informou que ele não vai se manifestar.

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