A inovação tecnológica não é neutra e pode ser
direcionada para contornar restrições de fatores produtivos
História econômica é um campo de pesquisa fascinante. Um
aspecto importante da minha formação como economista sempre foi o seu estudo,
seja nas disciplinas da graduação e do doutorado, seja nas minhas horas de
lazer. Há uma discussão sobre a redução do número de cadeiras obrigatórias no
curso de economia da Universidade de Cambridge. Sou totalmente contra.
Na graduação na UFPE, tive ótimos cursos sobre a formação
econômica do Brasil e do Nordeste com o professor Policarmo Lima. O livro que
estudei sobre o Nordeste foi escrito pelo meu sogro, o professor Leonardo
Guimarães Neto. A obra tem uma bela capa, com a foto de uma fazenda com
escravos, provavelmente na zona da mata pernambucana. Em um contexto de forte
interesse pelas raízes do atraso econômico regional, influenciado por trabalhos
de Celso Furtado, como o documento GTDN de políticas públicas para o desenvolvimento
regional, Leonardo Guimarães Neto analisa a trajetória do Nordeste, enfatizando
suas relações comerciais com o mundo e com o restante do país.
Até meados do século 17, o Brasil
apresentava níveis de renda per capita, comparáveis aos da Inglaterra e dos EUA
No meu doutorado na Universidade de Illinois, para onde fui
a convite do professor Werner Baer, especializei-me em história econômica. Foi
lá, em 2000, que assisti à palestra do então jovem economista do MIT, Daron
Acemoglu, sobre como a mortalidade de europeus nas colônias moldou instituições
e continua a influenciar o desenvolvimento. Confesso que, à época, apesar da
criatividade ao explorar dados históricos, achei que a teoria não era
propriamente inovadora. A distinção entre colônias de exploração e de povoamento
já aparecia na literatura. Trabalhos como os de Stanley Engerman e Kenneth
Sokoloff já enfatizavam como diferentes estruturas coloniais geraram
trajetórias distintas nas Américas. Mas Acemoglu, com coautores, quantificou
esses efeitos, contribuição que anos depois seria reconhecida com o Prêmio
Nobel de Economia em 2024.
Com o professor Stephen Parente, participei de um grupo de
leitura de história econômica. Lembro de ter lido “The Lever of Riches”, de
Joel Mokyr, “The Rise and Decline of Nations”, de Mancur Olson, e “The Wealth
and Poverty of Nations”, de David Landes. Três excelentes obras que procuram
entender trajetórias heterogêneas de desenvolvimento. O trabalho de Mokyr
também recebeu reconhecimento máximo ao lhe render o Prêmio Nobel de Economia
em 2025. O próprio Parente, com Edward Prescott, laureado em 2004, escreveu
“Barriers to Riches”.
Um dos desafios de escrever sobre história econômica e
testar hipóteses é o acesso a dados confiáveis. Nosso primeiro censo
demográfico foi realizado em 1872, registrando uma população de aproximadamente
9,9 milhões de habitantes, incluindo cerca de 1,5 milhão de escravos. Já os
dados de contas nacionais só começaram a ser desenvolvidos nos anos 1930, com
os trabalhos de Simon Kuznets, e foram posteriormente aperfeiçoados pelo
professor de Cambridge Richard Stone, sobretudo nos anos 1940, quando estruturou
o sistema moderno de contas nacionais.
Para construir dados anteriores ao século XX, é preciso
acessar arquivos comerciais, registros paroquiais e fazer hipóteses sobre
representatividade e padrões de consumo. Foi assim que Guilherme Lambais e Nuno
Palma construíram, no artigo “How a Nation Was Born: Brazilian Economic
Growth”, 1574–1920, uma nova série de PIB per capita entre 1574 e 1920, quando
antes havia estimativas apenas a partir de 1820. Na prática, essa reconstrução
combina diferentes fontes, incluindo documentos públicos e registros das Santas
Casas, como livros de contabilidade e recibos, que permitem construir séries de
salários reais urbanos e inferir padrões de renda e custo de vida.
A nova série sugere que o Brasil apresentava níveis
relativamente elevados de renda per capita até meados do século XVII,
comparáveis aos da Inglaterra e dos Estados Unidos e superiores aos de Portugal
e da Espanha. A partir de 1650 e até 1850, observa-se um longo período de
declínio e estagnação, com episódios pontuais de crescimento que não alteraram
essa trajetória. Trata-se de uma trajetória distinta da observada na Inglaterra
e nos Estados Unidos, marcada por fortes ganhos de produtividade associados à
Revolução Industrial. Só a partir de meados do século XIX surge um crescimento
sustentado no Brasil, ainda assim modesto em comparação com as economias do
Atlântico Norte.
Em 1920, a economia brasileira tinha um PIB per capita de
aproximadamente 20% do PIB per capita americano. Hoje, esse valor é cerca de
25% do observado nos Estados Unidos. Ou seja, mesmo após mais de um século de
transformação estrutural, com a transição de uma economia rural para urbana e o
início do processo de industrialização, os ganhos de produtividade no país
foram relativamente modestos quando comparados aos de diversas outras nações,
como a Coreia do Sul ou o Chile, que conseguiram reduzir de forma significativa
a distância em relação às economias mais desenvolvidas.
Uma possível interpretação desses resultados documentados
por Lambais e Palma é que o fraco desempenho de longo prazo esteja intimamente
ligado à estrutura escravista da economia. Como enfatiza Samuel Pessôa em
resenha sobre o artigo, a oferta elástica de trabalho escravizado mantinha
salários baixos e reduzia os incentivos ao progresso técnico, limitando a
difusão de ganhos de produtividade. Nesse contexto, o crescimento só começa a
aparecer quando a escravidão entra em declínio, com o fim do tráfico e, posteriormente,
da própria instituição, sugerindo que o principal entrave ao desenvolvimento
não era apenas a inserção externa ou a especialização produtiva, mas a própria
organização do mercado de trabalho e da sociedade.
O passado traz experiências para o presente e para o futuro,
inclusive para o debate sobre como a organização do trabalho e a escassez de
fatores podem afetar a eficiência produtiva. Como mostram diversos trabalhos de
Daron Acemoglu, que considero sua agenda de pesquisa mais original, a inovação
tecnológica não é neutra e pode ser direcionada para contornar restrições de
fatores produtivos.
*Tiago Cavalcanti é professor Titular de Economia da
Universidade de Cambridge e da FGV-SP.

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