quarta-feira, 6 de maio de 2026

TRUMP, TARIFAÇO E A NOVA LEI DE TERRAS RARAS

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Encontro com presidente americano será uma oportunidade para Lula fazer funcionar sua química

Aguardada pelo lado brasileiro para esta quinta-feira, depois de haver ficado em suspenso durante semanas por causa da guerra no Irã, a reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o mandatário dos Estados Unidos, Donald Trump, ocorre sob sombra de um possível novo tarifaço, por causa de supostas práticas desleais do Brasil, em temas que vão de Pix a desmatamento. O Brasil é investigado com base na Seção 301 da Lei do Comércio, o que pode resultar em tarifas adicionais.

Por outro lado, Lula tem em mãos o trunfo das terras raras, que são no momento o maior ponto de interesse dos Estados Unidos no Brasil.

O brasileiro chegará ao diálogo sem uma definição firme sobre como o país vai se posicionar nesse tema. No seu entorno há quem defenda uma política nacionalista e a criação da estatal Terrabras. Mas também há os que querem criar condições para atrair investimentos estrangeiros - o que, por sua vez, esbarra nas limitações das contas públicas apertadas.

Para piorar, o tema subiu aos palanques. Opositores de Lula como os pré-candidatos à Presidência Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado defendem um alinhamento aos Estados Unidos.

Em meio a divisões no governo e no Congresso, a política brasileira para terras raras começa a ganhar contornos. A Câmara dos Deputados pode votar nesta quarta-feira o Projeto de Lei 2.780/2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Será apreciado o relatório do deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), que foi recebido com um misto de aprovação e preocupação pelo setor privado.

Os pontos que agradaram às empresas são os que estabelecem mecanismos de incentivo ao investimento. A proposta cria um fundo garantidor de R$ 2 bilhões para operações de crédito relacionadas ao setor e institui créditos financeiros às empresas no valor total de R$ 1 bilhão por ano de 2030 a 2034.

Esses créditos serão maiores conforme o grau de processamento do mineral aqui.

Além disso, o relatório permite que empresas do setor se financiem com a emissão de debêntures incentivadas e debêntures de infraestrutura. Podem também utilizar o Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (Reidi). Jardim disse que queria estender a elas o uso dos incentivos da Lei do Bem, relacionada a tecnologia, mas recuou após diálogos com o Ministério da Fazenda sobre a questão fiscal.

Um ponto que causa preocupação nas empresas são os poderes dados ao Conselho Especial de Minerais Críticos e Estratégicos, a ser criado pela lei. O colegiado avaliará previamente “mudanças de controle societário, participação relevante ou influência significativa de pessoas jurídicas estrangeiras em empresas detentoras de direitos minerários dos minerais e contratos, acordos ou parcerias internacionais que envolvam fornecimento dos minerais críticos e estratégicos”.

Chamou a atenção do diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário, o inciso I do artigo 8º, que coloca o “estabelecimento de parâmetros, condicionantes, requisitos técnicos ou compromissos de agregação de valor vinculados à exportação” como instrumentos para atingir os objetivos da política. “Dá uma carta branca para o governo dizer qualquer coisa”, comentou. “É uma aplicação tão ampla que pode ser inaplicável.”

O mesmo dispositivo abre espaço para a cobrança do Imposto de Exportação, outro ponto que era acompanhado com preocupação pelas empresas.

À coluna o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, disse que o texto elaborado por Jardim avança na direção desejada. “A ideia de industrialização e defesa do interesse nacional estão presentes.”

Os incentivos que agradaram ao setor privado vão demandar mais discussão, segundo informou ao Valor o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron. Há um diálogo com o Congresso para definir qual o limite para se fazer algo positivo para o setor de minerais críticos sem prejudicar a economia como um todo, disse.

“Tudo que não tem compensação nos preocupa”, afirmou, referindo-se à ampliação de renúncias tributárias. “Claro que aqui tem uma importância estratégica para o país de diferentes dimensões, então não dá para colocar na mesma caixinha de outras discussões, mas também tem que ter cuidado e razoabilidade.”

Um negociador que atuou no caso do tarifaço avalia que as terras raras são um tema com “enorme potencial” para aprofundar a agenda de cooperação entre os dois países. O fato de possuir a segunda maior reserva do planeta de um produto essencial para a indústria moderna, a tecnologia, a transformação energética e a indústria de defesa “aumenta o capital estratégico do Brasil numa agenda geopolítica”

O encontro com Trump será uma oportunidade para Lula fazer funcionar sua química. Para ajudar a evitar um novo tarifaço e para lançar bases para uma cooperação no processamento das terras raras.

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