Guerra de EUA e Israel contra Irã deve agravar crises
alimentares em países da África
Mesmo com fim da tensão no Oriente Médio, normalidade no
fornecimento de combustíveis levaria meses
Conta-se que, quando Lenin enviou Trótski a Brest-Litovsk
para negociar uma paz com o Império Alemão, as condições impostas pelos
emissários do kaiser eram tão duras que era impossível aceitá-las, mas voltar
para casa sem a paz prometida era inconcebível.
Trótski tentava fugir ao dilema, e os alemães
perguntavam-lhe sempre: "Afinal o que é que vocês querem, paz ou
guerra?". Trótski teria respondido: "Nem guerra nem paz".
A resposta lembra o
que se passa agora entre Donald Trump e Irã. Não temos
guerra ativa; também não temos paz. A situação tanto pode degenerar quanto
ficar congelada durante semanas ou meses, dependendo da capacidade de
sofrimento de cada lado.
Em princípio, o Irã leva vantagem nesse quesito. Trump tem
um povo que detesta pagar US$ 4,50 por galão de gasolina e há eleições de meio
de mandato em novembro.
Mas mesmo que a guerra acabasse amanhã, a
normalidade demoraria meses a ser reposta nos fornecimentos de combustíveis, e
já não haveria tempo, neste ano, para repor os fornecimentos de fertilizantes.
Cerca de um terço de todo o comércio
marítimo mundial de fertilizantes passa pelo estreito
de Hormuz. O que podia ser plantado já foi decidido nestas condições de
escassez. Sem falar nos compostos de enxofre, indispensáveis tanto à
transformação do fosfato em fertilizante absorvível quanto à indústria de
semicondutores que sustenta o setor hoje em maior pujança econômica: o da
inteligência artificial.
Isto não
afeta toda a gente da mesma forma. O mundo rico vive numa situação em que,
pagando mais ou menos pela comida, não se passa fome.
No resto do mundo, e particularmente em regiões
como o Chifre de África, vive-se como viviam os nossos antepassados. Um mau
ano agrícola significa primeiro consumir as provisões do inverno, depois pular
refeições, depois abater os animais que já não se conseguem alimentar e,
depois, pegar a família e fugir à fome antes de morrer por ela. Essa pode ser,
daqui a uns meses, a situação na Somália.
E é aqui que o problema bate à porta da Europa, que ficará
na linha da frente do acolhimento de quem fugir. A mesma Europa que tem
hoje uma agenda anti-imigrante; quando há uns anos a União Europeia pagava
aos países europeus para receberem refugiados, estes agora pagam ao bloco para
não receberem.
E são os mesmos governos que, por outro lado, decidiram
cortar ajuda ao desenvolvimento. Aliás aqui também com o exemplo pioneiro dos
EUA, que destruíram
por dentro a Usaid apesar de saberem que esta agência de cooperação
fornecia comida a países onde esse alimento faz a diferença entre vida e morte.
Olhamos para uma humanidade
equipada com inteligência artificial, com tudo o que seria preciso para
resolver um problema que é logístico e político, e vemos líderes que não só não
fazem nada para o resolver como ainda lhe acrescentam a guerra. Só falta a
peste para um retorno à Idade Média.
O mais deprimente nesta situação infernal é que não há um
único elemento nela que fosse inevitável. Tudo são escolhas políticas. Nos
nossos tempos, parece que um excesso de inteligência artificial nos corresponde
a um excesso igual de estupidez natural.
*Historiador, deputado na Assembleia da República de
Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de 'Agora, Agora e Mais
Agora

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