Critique algum exagero progressista e prepare-se para ser
catapultado, sem escalas, à ultradireita
Há dois prefixos de origem latina que, depois de séculos de
excelentes serviços prestados ao idioma, encaram um fim melancólico.
Ultra era, na juventude, um exagerado, um extremista. Onde
quer que se encostasse, passava do limite. Se “super” indicava algo acima do
normal (vide supermercado, superlativo) e “hiper” levava tudo a um nível ainda
mais elevado ou mais intenso (hipermercado, hipertensão), “ultra” era outro
patamar — ao infinito e além (tanto que nunca existiram ultramercado nem
ultratireoidismo).
A radiação com energia superior à da luz
visível era a ultravioleta. As ondas sonoras com frequências superiores ao
limite de audição humana eram o ultrassom. Enquanto o Super-Homem beirava 1,90
metro e, talvez, 100 quilos, o Ultraman tinha 40 metros de altura e 30 mil
toneladas.
Ultra excedia o que quer que fosse. Tente pensar na
distância que há entre secreto (aquele seu caso extraconjugal) e ultrassecreto
(a cartela de vacinação do presidente antivax, a agenda da primeira-dama).
As definições de ultra nos dicionários, entretanto, estão
ultrapassadas. Agora basta acreditar na biologia, seguir as regras gramaticais
ou ficar com um pé atrás em relação a uma novidade e você é ultraconservador.
Critique algum exagero progressista e prepare-se para ser catapultado, sem
escalas, à ultradireita. E não é preciso se exceder: um reles questionamento já
é considerado um ultraje. Se bobear, nec plus ultra não será mais o ápice de
nada, só algo mediano — e olhe lá.
O mesmo aconteceu com trans. Desde uns 700 a.C. o prefixo
significa “além de”, “através de”, “do outro lado”. A Gália além dos Alpes era
a Gália Transalpina (a “do lado de cá”, do ponto de vista dos romanos, era a
Cisalpina). Daí serem transexuais os que estavam “do lado de lá” de um sexo e
cruzaram a fronteira.
Isso até resolverem que “mulher trans é mulher”. O que,
convenhamos, é um oximoro: exceto na superposição quântica, não se pode estar
lá e cá simultaneamente. Trans é quem nasceu com um sexo e fez uma transição
(não necessariamente cirúrgica) para o sexo oposto. Mulheres trans têm, sem
dúvida, os mesmos direitos das mulheres — mas, se fossem mulheres, não
precisariam do prefixo que traduz mudança, travessia.
Ele serve para os transatlânticos — que, por um desses
mistérios insondáveis, também cruzam o Pacífico, o Índico etc. Para a
Transamazônica, aquele atoleiro que insiste em impedir que se atravesse a
Amazônia. O próprio verbo transportar indica que se leva alguma coisa de um
lugar a outro. E, se mulher trans é mulher, então não existe transfobia, só
misoginia.
Tá legal, eu aceito o argumento de que a língua é dinâmica,
mas um pouco de ortodoxia na semântica vai bem. Ou de agora em diante trânsfuga
não precisa mudar de lado, transeunte pode estar parado, a transformação deixa
igual e “transgênico é orgânico” pode vir a ser o novo mote do agro.
Se a tendência não for revertida a tempo, é provável que os
Estados Unidos, ao ganharem sua primeira Copa do Mundo, neste ano, já se possam
declarar pentacampeões, empatando conosco. E daqui a pouco os prefixos
aparecerão no final das palavras. Como não reclamamos quando rebaixaram o ultra
e neutralizaram o trans, ninguém poderá dizer nada.

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