Desenrola 2.0: em tempos de eleições, endividado fica
esperando o perdão ou benefícios do governo
Programa que pretende aliviar o endividamento das
famílias foi criado para amolecer a disposição do eleitor à Lula
A operação Desenrola-2, que pretende produzir alívio no
endividamento das famílias, é tecnicamente limitada e, do ponto de vista
estrutural, traz mais malefícios do que benefícios. Mas tem de ser vista sob o
ponto de vista do objetivo a que se destina, que é eleitoreiro. Foi criada para
amolecer a disposição do eleitor em relação à candidatura Lula e, nisso, pode
ter lá sua eficácia.
Os números assustam. Levantamentos do
Serasa mostram que há quase 83 milhões de pessoas com ficha suja no País. O
Banco Central aponta uma inadimplência de 4,3% e o comprometimento de quase 30%
da renda dos endividados. O Serasa inclui não apenas dívidas financeiras, mas
também comerciais e com outros fornecedores, como os de energia elétrica e água
ou obrigações contratuais, como as despesas de condomínio. Por esse critério,
entre 72% e 80% da renda das famílias está comprometida com pagamento de dívidas.
O Desenrola-2 garante descontos de 30% a 90% do principal,
estica o prazo de amortização e permite o uso do Fundo de Garantia para
integrar a operação. Mas o benefício se limita a quem ganha até 5 salários
mínimos (R$ 8.105,00).
A principal falha do programa é a de que não atua sobre as
causas do superendividamento. Limita-se a atacar seus efeitos. Entre as causas,
a mais apontada são os juros, que encarecem o crédito e engrossam a dívida. Só
que os juros estão nos 14,5% ao ano porque foi preciso atacar a inflação que,
por sua vez, é em grande parte obra da gastança do governo. Se fosse para
reverter o superendividamento, o governo teria de combater o rombo.
O governo reconhece que as apostas nas bets corroem o
orçamento das famílias. Por isso, proíbe que os beneficiários do Desenrola-2
derramem dinheiro nessas apostas por pelo menos um ano.
Entre as outras causas do forte endividamento estão os
estímulos ao consumo, e não ao investimento. Quando subsidia os combustíveis,
por exemplo, o governo está facilitando o consumo. Ao permitir que o comércio
parcele uma compra em 5, 10 ou mais vezes “sem juros” e incorpore ao preço à
vista o equivalente aos juros da operação, está também facilitando o consumo.
Tanto o Desenrola-1 de 2023, quanto este Desenrola-2
carregam dois vícios. Premiam, se não o calote, pelo menos a inadimplência.
Quem honra suas obrigações financeiras não tem nenhuma vantagem. O segundo
vício é o de que cria a cultura do deixa pra depois. O endividado fica
esperando sempre o perdão, descontos ou benefícios despejados pelo governo,
pelo menos em tempo de eleições.

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