Nesse filme, é difícil achar o mocinho. Lula indicou um
amigo fiel para o Supremo. Davi Alcolumbre o sabotou porque queria colocar um
amigo fiel no Supremo. A direita ajudou a derrubar Jorge Messias porque sonha
em conquistar o Senado e povoá-lo de amigos fiéis, derrubando alguns ministros
de reputação duvidosa.
Em todos os casos, o Supremo é um território a ser ocupado,
e não um espaço que a sociedade preenche com os mais brilhantes e honestos
juristas, na esperança de decisões sábias e imparciais.
Muitos analistas consideram histórica a rejeição de Messias.
De certa forma, acho um exagero. Não é histórica como a cena em que Dom Pedro
parou no riacho Ipiranga ou a carta de Getúlio Vargas, deixando a vida para
entrar na História. É verdade que algo assim aconteceu antes, há 132 anos, no
tempo de Floriano Peixoto. É mais um fato de almanaque.
Na verdade, não posso dizer que tenha se passado um filme.
Não fui testemunha. Mas, analisando o relato de quem fala com os envolvidos,
concluo que poderia ser uma série intitulada “Fugindo da polícia”, algo que
sempre rende muitos capítulos. Agora mesmo, veio a público que senadores e
deputados desembarcaram com malas suspeitas num aeroporto de São Paulo. Não
passaram pela alfândega.
O Banco Master, segundo analistas, foi o centro do roteiro
que derrubou Messias. Alcolumbre teme as investigações. O Amapá despejou quase
R$ 400 milhões nos cofres de Daniel Vorcaro. O presidente da Previdência do
estado é indicado por ele. Jornalistas de Brasília afirmam também que Alexandre
de Moraes participou da emboscada contra Messias. Ele temia que o novo ministro
se alinhasse a seu amigo evangélico André Mendonça e, com a graça de Deus, o
ferrassem quando seu caso fosse a julgamento.
O papel da direita nessa história foi embarcar na rejeição e
não falar mais em CPMI do caso Master. Todos se sentem mais seguros, mas não
deveriam. A Polícia Federal está investigando. Suas mesas estão cheias de
celulares, como nas fotos de apreensão de telefones roubados no carnaval.
Alguns analistas disseram que o governo acabou e que Lula
perderá as eleições. São conclusões apressadas, com apenas uma utilidade: tirar
Lula da zona de conforto e trazê-lo para uma das mais importantes campanhas de
sua história: a saideira. Para muitos, ícone da redemocratização, cara do
Brasil no exterior, maior líder da História recente, Lula pode se empolgar e
tentar fazer o melhor governo de toda a sua trajetória.
Afinal de contas, a redemocratização é tarefa de todos, e é
preciso lutar para que não se afunde na mediocridade. Se a rejeição de Messias
puder inspirar uma virada de jogo, ela, afinal, valeu a pena para as forças no
poder.
Talvez essa visão seja um pouco otimista. O Manifesto do PT
foi considerado pobre, e a campanha parece que será dirigida pela velha guarda.
O próprio Lula precisa superar a húbris que se instala depois de tantos anos no
poder, abrindo-se com mais humildade para o Brasil de nossos dias. Enfim, tudo
é possível quando se sacode a poeira e se dá a volta por cima.
Artigo publicado no jornal O Globo em 05 / 05 / 2026

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