Você vai dizer alguma coisa e, de repente, a palavra lhe
escapa. O nome disso é letologia
Um dicionário com essas palavras teria de ser um volume
de 500 páginas, todas em branco
Sabe aquela frase que você começa a dizer e, de repente, a
palavra-chave lhe escapa e você não consegue se lembrar de jeito nenhum?
Segundos antes, ela estava na ponta da língua, pronta para ser dita, e veio
aquele bloqueio sem explicação. O poeta Antonio
Carlos Secchin, meu amigo e colega da Academia Brasileira de
Letras, descobriu o nome para isso: letologia —a incapacidade temporária de
lembrar uma palavra. Vem do grego: lêthê, esquecimento, e logos, palavra.
Letologia —grave bem para não esquecer.
Empolgado com o achado, Secchin está
cogitando a criação de um "Grande Dicionário das Palavras na Ponta da
Língua". Bem de acordo com o tema, seria um livro de 500 páginas em
branco, contendo todas as palavras que nos fogem quando mais precisamos delas
—no exato momento em que elas nos fogem e desaparecem. Sua ideia já teve o
apoio de vários colegas. O escritor e diplomata Felipe Fortuna ofereceu-se para
escrever o prefácio: duas páginas em branco, com agudas observações nas
entrelinhas. Eu próprio prometi-lhe mandar o texto da contracapa: dez linhas
com apenas os espaços entre as palavras.
Uma dificuldade será encontrar alguém para fazer a revisão.
Sugeri a Secchin um revisor que conheço, com dez graus de astigmatismo. O
lexicógrafo Ricardo Cavalieri, também da Academia, propôs uma versão em
braille, com o que me ocorreu um vídeo do dicionário em libras. Os dicionários
costumam ser um suplício para os consultores de vista cansada, mas este não
terá esse problema. E, se editado em outros países, ninguém reclamará da
tradução. Os chineses, inclusive, ficarão admirados com a semelhança entre o mandarim
e o português.
Os críticos, ao resenhar o dicionário, se identificarão
profundamente com ele, já que a maioria deles não tem nada a dizer. E os
presenteados com o livro dirão que lhes faltam palavras para agradecer o mimo.
Mais ainda se a dedicatória tiver sido escrita com tinta invisível.
Secchin planeja também uma edição eletrônica, para ser
consultada em celulares sem memória.

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