Carmen Miranda serviu, sim, à Política da Boa Vizinhança.
Ela e dezenas de astros americanos
Ao se apresentar para os soldados nos quartéis, ela era o
Brasil lutando pela causa da liberdade
Em coluna
recente (22/4), tentei desmentir a história repetida à exaustão de
que Carmen
Miranda foi para os EUA em 1939 nas asas da Política da Boa
Vizinhança, uma arma americana na Segunda Guerra. Demonstrei que, naquele ano,
a famigerada política ainda não estava em operação, que os EUA sequer tinham
entrado na guerra (o que só aconteceria em dezembro de 1941) e que a guerra nem
mesmo começara. Carmen foi contratada por seu talento e pelo dinheiro que
renderia para o megaempresário dos teatros, Lee Shubert. A Broadway, então uma
operação doméstica, exclusivamente nova-iorquina, não tinha o menor interesse
pela guerra.
Um leitor observou que, depois, Carmen foi
usada por Hollywood em filmes para agradar ao mercado latino-americano. Isto,
sim, é verdade. Carmen foi a estrela dos filmes produzidos pela 20th
Century-Fox em cenários "exóticos", como "Serenata
Tropical" (1940), "Uma Noite no Rio" (1941), "Aconteceu em
Havana" (1941), "Minha Secretária Brasileira" (1942) e o
sensacional "Entre a Loura e a Morena" (1943).
E, assim como ela, seus colegas americanos naqueles filmes:
Betty Grable, Alice Faye, Don Ameche, John Payne, Harry James, Benny Goodman.
Todos superestelares, e nenhum deles perdeu pontos por "trabalhar para a
Política da Boa Vizinhança". Foi o que eles fizeram, assim como Walt
Disney, Orson Welles, Bing Crosby, o compositor Aaron Copland, o maestro
Leopold Stokowski. Muitos até interromperam suas carreiras para lutar pelos EUA
na Europa: Clark Gable, James Stewart, Tyrone Power, Henry Fonda, William Holden.
Frank Sinatra não pôde ir —tinha um tímpano perfurado e podia não escutar o
canhão.
Ao trabalhar naqueles filmes e se apresentar para soldados
nos quartéis do país, Carmen era só mais uma artista a lutar pela causa dos
Aliados. Suas armas eram o jeito esfuziante de cantar e dançar e de fuzilar com
seus olhos verdes as últimas filas da plateia nos acampamentos.
E, quando fazia isto, todos sabiam que, ali, ela era o
Brasil, ao lado dos que lutavam pela liberdade.

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