Livro conta a fascinante história da constante ligada a
círculos
Autores elucidam alguns dos mistérios associados a esse
número
Confesso que comecei "Pi: uma autobiografia
infinita", de Mahsa Allahbakhshi, Andrés Navas e Verena Rodríguez, com um
pé atrás. É que a premissa do livro, Pi narrando
em primeira pessoa a sua história, me pareceu um pouco pueril. Mas o leitor
logo se habitua a essa estrutura e passa a deliciar-se com a torrente de
informações matemáticas e
históricas que se segue. Pi fascina humanos desde que eles juntaram seu gosto
por formas circulares com a capacidade de contar.
O livro nos
transporta por diferentes eras e civilizações. Quatro mil anos atrás, os
babilônios já haviam aproximado Pi do valor de 3,125, pouca coisa menor que o
3,14159265358980 embutido nas modernas máquinas de calcular. No século 3
a.C., Arquimedes, valendo-se da diferença de área entre
polígonos inscritos e circunscritos a um círculo, chegou a 22/7 (3,142857). É
um método trabalhoso. O sábio grego teve de fazer um número exorbitante de
contas sem o benefício dos algarismos arábicos e até de papel e lápis. Só tinha
uma vareta para riscar a areia.
Os autores não se limitam à Antiguidade e nem a Pi. Eles
discutem outros números interessantes, como a constante de Euler (e) e a razão
áurea (Phi), além de descrever didaticamente as contribuições dos muitos
matemáticos que foram ao longo dos séculos elucidando mistérios que cercam Pi.
O ponto alto, para mim, é quando eles exploram o caráter
irracional e transcendente de Pi, nos lançando no universo dos infinitos
realmente grandes. Simplificando, qualquer sequência imaginável de números está
contida em Pi. Isso inclui a Bíblia, se transcrevermos cada uma de suas letras
para o código ASCII. E não apenas a Bíblia, mas todos os livros já escritos, os por escrever e
até mesmo os que jamais foram nem serão escritos. Isso não está no livro, mas
essa intuição algo vertiginosa é a mesma que Nietzsche usou para postular a
doutrina do eterno retorno. Se o tempo é verdadeiramente infinito, então tudo o
que já aconteceu se repetirá infinitas vezes.
O infinito é grande.

Nenhum comentário:
Postar um comentário