Descobri, eu e grande número de brasileiros preocupados
com a representação política, que meu voto não decide em quem estou votando e
menos ainda no quê estou votando
Teoricamente, o regime político brasileiro é um regime
representativo. Mas exatamente de quê? Ou, de quem? Monitoro os políticos do
Legislativo para descobrir, no que falam e no que fazem, a quem e o que estão
representando. Descobri, eu e grande número de brasileiros preocupados com a
representação política, que meu voto não decide em quem estou votando e menos
ainda no que estou votando. Qual é a causa política e social que quero ver
representada em meu voto?
A eleição é aqui uma armadilha bem montada por interesses
que não são os meus, políticos, econômicos, religiosos. E até mesmo os do crime
organizado. Ou seja, na representação política brasileira, quem menos conta é o
candidato e menos ainda o eleitor. Entre o voto e o poder estão os misteriosos
“eleitores” invisíveis que precisam se ocultar para mandar.
Hoje as candidaturas são entre nós
meramente indiciais. Quem se prepara para votar, semanas antes da eleição, não
busca nas listas nomes que lhe digam alguma coisa quanto ao que seja
propriamente a busca da representação política. Buscam indícios de alguém que
corresponda ao representante procurado.
Os partidos funcionam como grupos organizados de interesses,
geralmente outros e até mesmo inconfessáveis, que usurparam a representação
política para representar e defender interesses que não são políticos nem são
os da consciência política dos eleitores.
Esse embaralhamento de valores e possibilidades atinge,
hoje, intensamente o campo das religiões. Há mais igrejas do que interesses a
serem representados em nome da fé. Dentro de alguns partidos há mais que um
partido e nada tem a ver com a sigla que os identifica.
Não somos pluralistas, somos despistados e despistáveis.
Vítimas da semicidadania, manipulada, servil. Porque temos sido privados, cada
vez mais, de referência identitária para nos defendermos como o que julgamos
ser.
Somos um povo carneiril, que se acha esperto e não sabe a
diferença entre o esperto e o espertalhão, o que é negócio e o que é corrupção,
o que é trabalho livre e o que é escravidão.
Acreditamos em Papai Noel e achamos que o pastor da igreja é
o dono de Deus, o que ele diz, diz em nome do Senhor e é expressão da vontade
de Deus. Quando prega que ter fé nada significa se eu não provar que a tenho e
só a provarei com o dízimo.
Quanto maior o dízimo, especialmente se for mais do que os
10% do salário que ganho com o suor do meu rosto, se for vintízimo, trízimo, o
que me colocará, no mínimo, quando chegar minha hora, diante da porta do céu.
Bater nela e conseguir que São Pedro a abra já são outros tostões. Se a palavra
do pastor que vai por aí significa alguma coisa, significa que Deus é um
negociante e até mesmo que está à venda.
Em vez de as neorreligiões do negócio negarem o ócio, negam
a fé. A religiosidade das novas religiões é a da espera, pague o dízimo e
espere. São antipolíticas porque meramente eleitorais. Se você elege alguém de
sua igreja, indicado pelo pastor ou pelo próprio candidato pastor, sua
representação política está garantida. Porque ela é a representação do pastor e
da igreja, não a sua. Você vota para se calar e se conformar, para concordar
com o que não sabe o que é.
Estamos em face de um imenso sistema de bandalheiras e nos
comportamos como se isso fosse natural. “Isso já está nos planos de Deus”,
explicou-me alguém há muito tempo. Deus dissemina a corrupção, a bandalheira, o
deboche político para testar a fé de suas ovelhas. O anômalo é normal.
No nascimento da República, em 1889, algumas restrições
republicanas foram feitas quanto a quem tem direito eleitoral, quem pode votar.
Não podiam votar as praças de pré, porque pessoas sob ordens e comando de
terceiros, sem vontade própria. Os membros das ordens monásticas tampouco
podiam votar porque sujeitos de obediência. Os analfabetos também não, pelo não
acesso à informação. Hoje, algumas religiões dessa linha cerceadora podem
existir e eleger.
O pressuposto republicano era o de que o discernimento é a
condição fundamental para ser eleitor e cidadão, para ser politicamente
representado e até mesmo representante.
Os tenentes das revoluções tenentistas dos anos 1920, que
chegaram ao poder com Getúlio Vargas e a Revolução de Outubro de 1930, incluíam
no seu programa a ditadura por tempo definido até que todo o povo estivesse
alfabetizado e, portanto, preparado para discernir criticamente sobre sua
representação política. De maneira muito suspeita, no golpe de Estado de 1964
cassaram os políticos de esquerda que estavam mais do que preparados para
representar politicamente os que neles votaram e pouparam os oportunistas e
corruptos que lhes seriam dóceis e úteis.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor
Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar,
da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador
Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra
as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros
livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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