‘Dark Horse’: ‘produção hollywoodiana’ foi filmada no Brasil
de modo irregular
O filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, “Dark
Horse”, foi rodado no Brasil pela produtora Go Up Entertainment Ltda. sem que
nenhuma das obrigações legais exigidas pela Agência Nacional do Cinema, a
Ancine, tenha sido cumprida. A empresa responsável pelo longa-metragem operou
sem registro da produção, sem contratos apresentados, sem comprovação de vistos
de trabalho para seu elenco majoritariamente estrangeiro e sem o pagamento de
direitos trabalhistas devidos a parte da equipe brasileira.
Reportagem exclusiva do Intercept Brasil revelou que o
deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, assinou um
contrato como produtor-executivo do filme e tinha poder sobre o dinheiro usado
no projeto. Já o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, negociou
repasses equivalentes a R$ 134 milhões para custear a produção do
longa-metragem com o banqueiro Daniel Vorcaro – valor superior ao de muitos
filmes ganhadores do Oscar.
No entanto, funcionários contratados no Brasil reclamaram de
condições degradantes no set, de terem sido enganados quanto à verdadeira
natureza do filme e até de agressão física, como relatou Revista Fórum em
dezembro de 2025.
Em documento obtido pelo Intercept, a Ancine confirmou, em
dezembro de 2025, que a Go Up jamais protocolou qualquer documentação em seus
sistemas.
Pela instrução normativa nº 79, de 2008, da agência
reguladora, toda obra audiovisual estrangeira filmada no Brasil — com exceção
daquelas de natureza jornalística — deve ser realizada sob responsabilidade de
uma produtora brasileira registrada na agência.
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milhões para bancar filme sobre Jair
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Vorcaro
A produtora não é mera intermediária. Antes de qualquer
câmera ser ligada no território brasileiro, ela precisa comunicar previamente a
produção à Ancine, enviando quatro documentos obrigatórios: o contrato firmado
com a empresa estrangeira com responsabilidades, remuneração e prazo; a
tradução do contrato quando em outro idioma; o plano provisório de filmagem com
datas e locais; e as cópias das folhas de identificação do passaporte de cada
profissional estrangeiro envolvido.
Só depois disso a Ancine emite o ofício que permite à
representação diplomática conceder os vistos de trabalho adequados. Nada disso
aconteceu com “Dark Horse”.
Como não houve protocolo, análise ou tramitação de
documentos por parte da produtora, não havia documentação a ser disponibilizada
pela agência.
Questionada, a Ancine afirmou, em nota enviada ao Intercept,
que “as filmagens estrangeiras – obras e produções estrangeiras de produtoras
estrangeiras – devem ser comunicadas” à agência. “Não existe tal obrigação na
hipótese de obras brasileiras, ou mesmo estrangeiras, filmadas por produtoras
brasileiras. No caso do filme em questão não houve qualquer comunicação ou
autorização pela Ancine”, explica.
A agência reguladora disse ainda que não houve pedido de
registro para o lançamento comercial no Brasil e que, por isso, “não dispõe
atualmente de informações sobre a produção, o financiamento ou os detalhes
técnicos” de “Dark Horse”. A Ancine não sabe sequer se o filme pode ser
classificado como obra brasileira ou estrangeira. O Intercept obteve com exclusividade o contrato de produção do longa,
que é estrangeiro.
A pergunta e a resposta que expõem tudo
Em 9 de dezembro de 2025, foi protocolado na Ancine um
pedido de acesso à informação questionando pontos específicos da legislação
audiovisual sobre o filme “Dark Horse”. A solicitação pedia a íntegra da
documentação enviada pela Go Up Entertainment para a autorização das filmagens.
Citou a norma correta e descreveu com exatidão os documentos que deveriam
existir.
O Serviço de Informação ao Cidadão, ou SIC, encaminhou o
pedido à Coordenação de Programas Internacionais de Cooperação e Intercâmbio —
a unidade técnica responsável por fiscalizar exatamente esse tipo de produção.
Dois dias depois, a unidade técnica respondeu: “Após consulta aos registros
internos e aos sistemas administrativos desta Coordenação, verificou-se que não
consta qualquer comunicação de filmagem estrangeira apresentada pela empresa GO
UP ENTERTAINMENT LTDA referente ao projeto ‘THE DARK HORSE’”.
A conclusão foi assinada pelo coordenador Daniel Toledo Piza
Tonacci. Não houve protocolo, tampouco análise ou tramitação de qualquer
documento. Em 12 de dezembro do ano passado, o SIC emitiu a resposta
oficial.
A decisão recebeu uma classificação técnica de “informação
inexistente”, pois não havia documentos para apresentar porque a produção, do
ponto de vista regulatório, nunca existiu. O prazo para recorrer abriu e fechou
sem que ninguém se manifestasse. Em 29 de dezembro de 2025, o processo foi
arquivado definitivamente.
Calote aos trabalhadores
Em 14 de janeiro deste ano, munido da confirmação oficial da
Ancine, o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do
Audiovisual dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato
Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Distrito Federal, o Sindcine,
protocolou denúncia formal, um pedido de informações e um requerimento de
providências.
De acordo com o sindicato, houve “notícia consistente de
contratações sem formalização adequada e pagamentos sem os parâmetros mínimos
de regularidade”. A Go Up Entertainment não havia cumprido as obrigações
contratuais assumidas com técnicos cinematográficos brasileiros. A Ancine disse
que “os processos de apuração estão em curso, observando os prazos e ritos
normativos” e que notificou a Go Up.
Notícia publicada pelo jornal O Globo em 14 de maio
referenda as preocupações do sindicato. Ao menos 14 figurantes que trabalharam
nas gravações de “Dark Horse” articulam ações judiciais contra a produção. Eles
afirmam ter enfrentado condições degradantes no set, incluindo episódios de
agressão, restrições ao uso de celular e banheiro e falta de informação prévia
sobre o conteúdo político da obra. Os figurantes disseram ainda que só
descobriram o tema do longa durante as filmagens.
O mesmo não aconteceu com profissionais em cargos mais
altos. De acordo com fontes ouvidas pelo Intercept, ao saberem o teor do filme,
muitos profissionais declinaram a proposta e isso inflacionou a produção. Para
conseguir contratar esses profissionais, precisaram pagar bem mais que o valor
de mercado. Com vergonha de participar, muitos não quiseram se identificar.
Eles assinam a obra com nomes fictícios.
As denúncias coincidem com relatos recebidos pelo Sindicato
dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo, o
Sated-SP, que aponta problemas como atrasos de pagamento, alimentação imprópria
para consumo e maus-tratos a atores e figurantes. Diante das queixas, o
sindicato enviou representantes ao local das gravações.
Fundo de quintal Hollywoodiano

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