Ela deixa claro que veio para ficar na política e pode se
tornar plano B para o PL ou apoio para Flávio. Seja o que for, sai mais forte
A
mensagem de Michelle Bolsonaro foi um ato de campanha, bem pensado e
bem realizado. É um plano de contingência da extrema direita e de Jair
Bolsonaro. O que falou, os símbolos da linguagem corporal, a caneta na mão,
a edição de imagens de suporte, a leitura em tom de conversa revelam a
minuciosa arquitetura de marketing político. Michelle é a melhor comunicadora
da família e tem pontos reais de conexão com os evangélicos. Atrai também a
atenção das mulheres, o eleitorado mais arredio ao bolsonarismo. A primeira
reação de Flávio
Bolsonaro foi a pior possível, a de menosprezo. Mulheres de qualquer
lado político já sofreram atos semelhantes.
Não se improvisa uma fala de 27 minutos que
tinha coerência e mensagens diretas e indiretas harmônicas e objetivos
evidentes. Quando ela disse “meu futuro político está nas mãos de Deus”,
estava, ao mesmo tempo, informando que tem projeto político próprio e
levantando a ideia, cara aos evangélicos, de uso das pessoas “escolhidas” para
“desígnios divinos”. Ela manipula com maestria todos os símbolos da
religiosidade evangélica e, em certa medida, também a protestante tradicional.
Esse eleitorado não é o suficiente para levá-la a planos maiores, mas é um bom
reduto. Não há banho no rio Jordão, de última hora, que supere o fato de que
ela fala a mesma língua dos crentes e é vista como fiel verdadeira.
Michelle nada faria sem a aprovação do marido Jair Bolsonaro
e sem o conhecimento do presidente do PL, Valdemar
Costa Neto, em conveniente viagem ao exterior. Ela usou a estrutura do
partido do qual é uma dirigente. O nome do ex-presidente foi usado
deliberadamente e de três formas. Era Jair, ou “o meu galego”, ou “o meu
marido”. Ela informou explicitamente que ele sabia de tudo.
Jair Bolsonaro precisa de que? De que seja eleito alguém que
aprovará seu indulto. Ele confia apenas em familiar de sangue, por isso
escolheu o seu primogênito. Ainda que Flávio Bolsonaro tenha um volume
considerável de intenção de votos, herdado do bolsonarismo e de grupos
simpatizantes, ele pode não conseguir superar as dificuldades do envolvimento
com o caso Master, e outros eventos que o levem ao derretimento. Para o
bolsonarismo, toda a extrema direita e o Partido Liberal é estratégico ter um
plano de contingência. As candidaturas só serão homologadas em agosto.
Michelle nada tem a perder com esta exposição. Respondeu à
dúvida mais frequente sobre ela, e que Flávio Bolsonaro apresentou de forma
ríspida: “Você chegou ontem na política”. Ao rebater essa dúvida, a fala foi
coberta por imagens de suas mobilizações em diversos pontos do Brasil.
Quando explicou o xadrez político do Ceará ela quis
exibir capacidade de articulação. Por outro lado, mostrou-se como uma esposa
zelosa que não aceita uma ofensa feita ao marido e nem mesmo esquece a ofensa
aos filhos do marido. Por isso, destacou por duas vezes a fala do Ciro que
chamou os enteados de “ovos de serpente nazistóides”.
Ao rejeitar o pragmatismo, que faz com que o inimigo de
ontem seja o aliado de hoje, ela passa a mensagem antipolítica. Ao mesmo tempo
todo o subtexto da fala de Michelle traz o recado de que ela veio para a
política para ficar. Foram muitas as falas que remetiam às causas
fundamentalistas para fidelizar o eleitorado conservador. Elogiou o
senador Eduardo Girão com
imagens de fetos, declarando que ele foi aliado de primeira hora “na defesa da
vida”.
Quando criticou os enteados, tanto Eduardo quanto Flávio,
ela disse, ao mesmo tempo: “já liberei o perdão”. Assim não se coloca como
rancorosa, mas como ofendida com capacidade de perdoar.
A primeira reação de Flávio ao dizer “hoje é dia de jogo,
nada nem ninguém me aborrece” só aumentou a força do que Michelle tinha dito,
de que ele a humilhara e a desprezava. Depois ele veio com um pedido de
desculpas enviesado, no estilo “se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço
desculpas”. Ela de novo foi mais esperta. “Uma nova história será escrita com
verdade, clareza e respeito”, disse.
Michelle
Bolsonaro ficou mais forte com esse episódio e Flávio se enfraqueceu.
Muitos cenários se abrem: o de Michelle ser o plano B, ou o do perdão público
ao enteado, com a entrada dela na campanha para fortalecê-lo. Parecerá
magnânima e venderá de novo a ideia de que sua prioridade é a família. O ato
foi tudo, exceto um desabafo impulsivo. Terá desdobramentos e consequências.

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