A incerteza sobre os desdobramentos de um acordo no
Oriente Médio e os efeitos do El Niño mantêm a economia em um cenário
imprevisível
A economia apelidou de superquarta o dia em que Brasil e
Estados Unidos decidem a taxa de juros. Engana-se quem pensa que o tema não tem
emoção. Lá, na terra de Donald Trump,
o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, foi escolhido para baixar os juros. Teve
que mantê-los e avisar que pode até subi-los no ano. Aqui, Gabriel
Galípolo conduziu mais uma decisão unânime por um cortezinho, a
terceira vez de uma queda de metade de meio ponto. De 0,25 em 0,25, a Selic foi
para 14,25%. A guerra de Trump foi um tiro no pé dele e no nosso. Os juros
poderiam ter caído muito mais este ano, não fosse o conflito no Oriente Médio.
Não há como negar o que o Banco
Central escreveu no começo do comunicado: “O ambiente externo
permanece incerto”. A grande dúvida era se o Copom daria algum sinal de
interromper a redução dos juros. Não fez isso, mas também não se comprometeu a
continuar cortando. O que significa que a autoridade monetária se deixa livre
para decidir em outra superquarta, daqui a 45 dias, se continua com essa queda
a conta-gotas ou se para por aí, encerrando a pequena redução da taxa. O
comunicado, sempre em linguagem sânscrita, avisou, ao cortar a taxa, que estava
dando “sequência ao ciclo de calibração monetária”.
É difícil calibrar. O ano está imprevisível. Nos últimos
dias, abriu-se uma fresta de esperança, pela chance de um acordo no Oriente
Médio, e isso tem derrubado os preços do petróleo. Será que a comemoração é
cedo demais? José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, acha que sim.
— Os mercados, sempre eufóricos, estão derrubando demais o
preço do petróleo no curto prazo por conta do acordo. Primeiro, porque é um
acordo preliminar e tem uma longa duração à frente. Segundo, o mercado está
subestimando o fato de que os estoques efetivos dos países consumidores estão
baixos e a normalização vai levar tempo.
Se a guerra acabar, haverá um ambiente mais favorável na
economia, mas a diferença não será tão grande, segundo José Roberto, porque com
o aumento do uso do etanol e as medidas para mitigar a alta dos derivados do
petróleo, o Brasil reduziu o impacto. Portanto, agora não teria muito a
“devolver”.
As expectativas de inflação para
este ano estão em 5,3%. Bem acima do teto da meta. Então por que baixar os
juros com uma projeção tão alta? O economista Bráulio Borges, da LCA
Consultores e pesquisador-associado do FGV Ibre, responde que é porque estão
altos demais.
—A Selic está num nível muito restritivo. Basta pegar a
conta do Banco Central de que os juros neutros (que não produzem inflação) é de
5% em termos reais. Com a inflação a 4%, dá uma Selic de 9%. O mercado que tem
uma visão mais pessimista acha que juros neutros são de 6% a 6,5% o que daria
uma Selic de 11%. Mesmo nas métricas mais pessimistas, ela está bastante
restritiva.
O Banco Central tem que olhar a inflação do “horizonte
relevante”. O número deste ano está dado. O que tem que trabalhar é a taxa
daqui a 18 meses. E o BC mesmo diz no comunicado. “A projeção da inflação do
Copom para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política
monetária, situa-se em 3,7% no cenário de referência”.
O risco continua muito alto, avisa o comunicado. Há pouca
certeza sobre o que vai acontecer com o choque externo. A chance de a tensão
diminuir é porque Trump precisa de um fim de guerra para chamar de seu. Mesmo
se o confronto der uma trégua, deve começar a pesar o efeito do El Niño. O
economista Felippe Serigati, professor do FGVAgro diz que, independentemente
das dúvidas sobre a intensidade, é certo que o fenômeno climático vai atingir
algumas culturas brasileiras da safra de 2026/2027.
— O cerrado brasileiro é de longe a área mais sensível aos
efeitos do El Niño e é justamente o principal celeiro. A região é uma das
maiores produtoras de milho, soja, algodão e pecuária de corte. Uma eventual
crise pode afetar os preços dos grãos e a pecuária. No Sul, o volume das chuvas
pode prejudicar culturas como soja, milho e arroz. No Sudeste, o clima pode
afetar café, cana-de-açúcar, laranja e feijão.
A guerra precisa acabar logo para que a normalização do
fornecimento de fertilizantes ocorra até o começo de agosto, lembra José
Roberto. Em outubro, o produto tem que estar distribuído para a próxima safra.
Diante de tanta incerteza, o Banco Central abusou da palavra “cautela” no
comunicado. Ele continuará indo bem devagar com esse andor.

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