Os negociadores brasileiros não têm muitas esperanças de
reverter a decisão do governo americano de impor novas tarifas
Os negociadores brasileiros não têm muitas esperanças de
reverter a decisão do governo americano de impor novas tarifas. A decisão final
será no mês que vem e o país prepara as suas considerações finais. Um
experimentado negociador me disse que este tem sido o mais difícil processo do
qual já participou. Outro funcionário do governo brasileiro me explicou o
seguinte: “É muito difícil evitar as tarifas porque há um claro desinteresse
dos Estados Unidos em chegar a um acordo”. O presidente Donald Trump quer condenar
o Brasil e não por motivos comerciais.
O que me explicaram é que no processo
contra 59 países e a União Europeia, em que alegaram que essas nações não têm
legislação eficiente contra importação de países que usem trabalho forçado, a
decisão americana será cobrar as taxas. É muito difícil para os países se
defenderem, e os Estados Unidos querem arrecadar.
—Eles não vão reverter para ninguém, porque querem
substituir as tarifas de base, que foram derrubadas. Na cabeça de Donald Trump,
é preciso arrecadar alguma coisa. Ele gosta do dinheiro entrando. E é curioso
porque em países ricos o imposto de importação não deveria ter caráter
arrecadatório. Trump mudou toda a lógica.
Há também pouca expectativa de que não seja aplicada a
tarifa de 25%, da seção 301 da lei de comércio. O Brasil foi “investigado” com
base neste item da lei por supostos erros no comércio com os Estados Unidos.
Esse foi um processo específico contra nós.
— No caso da 301, temos perguntado a eles o que querem em
certas áreas investigadas. Por exemplo, no desmatamento, querem mais dinheiro
para o Ibama? Mais dinheiro do BNDES para o arco do reflorestamento? Eles não
dizem, nem pedem nada. É como dizem, nem se o Brasil oferecer o céu, eles
mudariam a atitude punitiva — me disse um dos negociadores brasileiros.
Outro integrante do governo diz que é difícil contrapor
qualquer coisa. Contou que o lado americano pergunta o que o Brasil vai
oferecer e não pede nada específico. Um dos itens das acusações trata dos
acordos que temos com o México e a Índia.
– Eles dizem, ‘esses acordos estão atrapalhando as
exportações dos Estados Unidos’. Falam como se eles mesmos não tivessem acordos
com vários países.
Por mais que o Brasil explique que o desmatamento tem caído,
que há leis contra pirataria, que as vendas para a Índia e México são pequenas,
e que o Pix não compete com serviços americanos, eles continuam nas suas
posições.
Essa onda de tarifas altas começou porque os Estados Unidos
acusavam os países de lucrar com superávits permanentes no comércio bilateral.
Mostramos que não é o nosso caso porque temos déficit. Mas isso não melhorou a
situação para o país. É como se fingissem não entender essa diferença. Em
janeiro, contudo, o representante comercial da Casa Branca, Jamieson Greer, se
vangloriou em rede social de ter superávit com o Brasil.
Apesar do ceticismo com que os integrantes das equipes
negociadoras do Brasil avaliam a realidade, a decisão política é a de continuar
tentando um acordo. Agora têm acontecido as audiências públicas, os hearings. O
governo não participa. São ouvidos apenas os integrantes do setor privado. Os
negociadores preparam essas alegações finais reapresentando todos os nossos
pontos e argumentos.
Durante a negociação, por exemplo, foi perguntado quais
produtos e linhas os Estados Unidos querem que as tarifas sejam reduzidas.
Exceto do etanol, os americanos nada pediram.
- Falam de um modo geral, em setores industriais, o
automotivo, o médico, mas eles sabem que, se abrirmos, os grandes vencedores
serão os países asiáticos que são mais competitivos. Perguntamos isso desde o
ano passado. Reiteramos nos últimos meses e semanas. Eles sempre respondem de
forma genérica — explicou um integrante da missão negociadora brasileira.
A guerra tarifária de Donald Trump é para arrecadar mais e
tentar impor sua vontade aos países parceiros. No caso do Brasil, o bombardeio
tem sido uma tentativa de interferir no processo que condenou Jair Bolsonaro.
Foi um pedido dos bolsonaristas, primeiro de Eduardo e depois de Flávio
Bolsonaro. Agora eles tentam mudar a história, com pedidos para serem ouvidos
nas audiências, nas quais, dizem, defenderão que não haja taxação. O Brasil
será tributado com taxas punitivas, as empresas terão prejuízo, porque os
Bolsonaro fizeram lobby contra o Brasil.

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